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Sexta-feira, Outubro 31, 2008

E meu banana split, nada

Flávio Jacobsen

Era tudo muito estranho em 1976. Primeiro passeio no calçadão da rua XV. Eu queria comer um banana split. O velho, mais esperto e já morando na cidade há mais tempo – nos deixou terminando o ano letivo em São Paulo antes de trazer a família toda pra cá – me levou ao Stuart.

- Aqui tem testículo de boi – soltou, meio querendo me assustar.

Pra quem queria um inocente banana split numa tarde de frio honesto, aquilo soou como a coisa mais estranha que eu já havia ouvido até então. Mas ele estava apenas descrevendo o local, até hoje pitoresco, a um garoto de oito anos, para quem aquele mundo era totalmente novo. Novo de estranhar a frieza do povo, a imensa quantidade de velhos, os trajes das pessoas, em evidência mais elegantes que outros lugares do Brasil "quente" de onde eu vinha, e as ruas sem asfalto dos bairros. Tudo era realmente estranho. Mas testículos de boi como iguaria de boteco foi deveras acima da média.

- Aqui não entra mulher desacompanhada – o velho soltou mais esta, como se eu lá soubesse o que era uma mulher desacompanhada.

Depois do testículo que boi, que não provei, é bom que se diga, isso até não soou tão estranho. Ele tomou um chope mais algo forte, que era de preferência do pai. Eu de coca-cola. Nada de banana split.

Praça Osório e tomamos o calçadão de novo. O boulevard era a atração turística da nova urbanidade que se apresentava ao mundo, símbolo de civilização, da preferência aos pedestres, lugar de gente invés de carros, flores, cafés, confeitarias, bancos, joalherias, cinemas.

- Aqui é a Boca Maldita – descreve o velho apontando para o redor, onde nada de específico havia para ser apontado.

Aquilo foi demais. Fiquei tentando visualizar uma imensa boca. Ou como se dizia lá nos rincões de onde eu vinha: boca é sinônimo de zona, lugar de meretrício. Logo seguiram-se as explicações de que se tratava de um local de discussão, de gente falando mal, reunião de personalidades, daí a alcunha maldita, e tal.

Sentamo-nos por ali, numas cadeiras defronte ao bondinho, que meu pai explicou ser local de deixar as crianças, menores que eu, ainda bem. Ficamos sob uns troços roxos feitos para dar sombra, que igualmente estranhei, mas davam um barato de olhar o sol através deles, em acrílico transparente, pareciam imensos óculos escuros. E meu banana split, nada.

Comi o melhor sanduíche de que tenho notícia até hoje. O pernil do Triângulo. Nome esquisito, "marchand", quando vinha com vina junto, que acabara de saber tratar-se de salsicha, nada além. Estranho, mas o melhor.

- Então, filho. Agora você já conhece o coração da cidade. Aqui é onde se discute, lá no Stuart é onde tem testículo de boi. Ali é o bondinho. Aqui tem o sanduíche de pernil. Ali na esquina da Marechal é onde você pega o ônibus. E não se esqueça, tá vendo aquele cara ali? – apontou. Eu olhei.

- Que cara, pai? – perguntei sem ver nenhum "cara".

- Aquele, vestido de mulher.

Olhei para um sujeito barbudo, num vestido de camponesa colorido. Gritava, cantava e dançava.

- Sei.. – falei rindo. – O que tem?

- Nunca chegue perto dele – falou sério o velho. – Se o vir, atravesse a calçada.

Era a Gilda. O único travesti barbado da história da humanidade. Abordava pessoas na rua, pedindo moedas sob ameaça de beijinhos constrangedores em caso de recusa. Entendi na hora e nunca cheguei perto. Morreu congelada dez anos depois, como cabe a um personagem do lugar mais frio que havia visto até então. E a vida seguiu.

Agora mesmo, olho para o velho vinil "Never Mind the Bollocks, Here’s The Sex Pistols" e vejo que as coisas eram realmente muito estranhas em 1976. E meu banana split, nada.

Folha de Londrina – 24/10

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 5:58 PM Comentários:



Terça-feira, Outubro 21, 2008

Composições de Primavera com Liquespace

O músico e compositor paranaense Marcelo França, mais conhecido como Lique, lança seu segundo álbum acompanhado de sua banda, a Liquespace. Lique surgiu do intenso movimento da cena curitibana dos anos de 1990. Compositor de rara habilidade, prima pelo trabalho com letras de cunho poético e pelas inovações trazidas pela intensa mistura de ritmos que marcou aquela década e o início deste século. Lançou em 2003 o álbum Reunião, indo em seguida viver no Rio de Janeiro, São Paulo e mais recentemente em Belo Horizonte.
Agora, em 2008, brinda o público com o especialíssimo Cidade Estrangeira. Das parcerias e andanças pelo Brasil, traz para o show de lançamento participações especiais como o músico Sérgio Monteiro Freire, e o renomado produtor Antônio Saraiva, que já trabalhou nas produções de álbuns importantes dos paranaenses Beijo AA Força e Fato. Liquespace é: Fernando Rischbieter (guitarra), Júlio Epifany (bateria), Denis Nunes (baixo), Alonso Figueroa (voz teclados acordeon e programações), e Lique (voz e guitarra). 22h - Entrada R$5.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 9:30 AM Comentários:




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