insônia, depressão, música, literatura,
crônicas de alcoolismo e declarações de amor
Terça-feira, Julho 24, 2007
Escarlate
Entre os destroços do avião, o que sobrou de Antônio, por milagre ainda à feição. O terno risca de giz queimado, mas quase intacto. Cabelos grisalhos inconfundíveis. Punhos cerrados. Numa das mãos, a maleta presa ao pulso algemada. Na outra, uma foto 3x4.
Madalena foi reconhecer o marido no IML. Confirmado, era ele, e os pertences. Na foto colorida, uma moça anos mais nova. Cabelos vermelhos tingidos. Olhos claros e um sorriso leve. Na maleta, escova e pasta de dentes, mais documentos que não lhe diziam nada. Choro breve e procedimentos.
Dia seguinte, na capela do Municipal, família, imprensa, empresários e amigos. Sob um véu negro, adentrando discreta e solene, a moça toca com a ponta dos dedos, levemente, o caixão fechado. Sorri o mesmo enigma da foto, deixando escapar por debaixo do véu alguns fios escarlates. Uma rosa branca, e vai-se sem cumprimentos.
Madalena abraça o mais novo em um tweed inglês. Ensaia uma gargalhada, tornada um choro de soluços. A repórter de tevê olha de soslaio, irrompe em breve silêncio. Devolve a matéria ao apresentador do plantão diário.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 11:57 AM
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Quarta-feira, Julho 18, 2007
Aos incautos
Em tempos de se dizer, a exemplo de Dunga, sem noção, da pureza das criancinhas, gostaria que os detratores leiam este texto do Parada, de Campínas, ligado ao núcleo
insanus.org, de Porto Alegre, sobre Curitiba. Sem "dunguisses", mas leiam
aqui.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 11:28 AM
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Terça-feira, Julho 17, 2007
Vai rolar a Rádio Tirana
mais informações:
http://radiotirana.blogspot.com/
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 5:16 PM
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Sexta-feira, Julho 13, 2007
Yeah
Hoje é o
Dia Mundial do Rock. Sei lá, essas datas. Mas levanto aqui um brinde a esta maldição que tomou conta de mim ainda em tenra idade. Essa coisa que mudou meu coração, minha mente e minha vida para todo o sempre. Essa estranha energia que me dá forças pra viver. Essa eletricidade, essa ira santa e pagã. Never die, never die. Saúde!
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:42 PM
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Terça-feira, Julho 10, 2007
O Thadeu me intimou num texto. O tema era "Onde você estava no dia em que o Leminski Morreu?" Eu escrevi:
Sangue de poeta
Eu tinha uns 21 anos. Aviões vinham em minha direção de cinco em cinco minutos. Passavam que passavam raspando o predinho de um andar onde eu estava de janela, digitando em um computador ainda antes do Windows, sem mouse e de tela escura com letrinhas esverdeadas. Eles vinham e era um ai ai ai. Sim, eu pensava em catástrofes assim muito antes do World Trade Center.
Em frente à base aérea, ali no Bacacha. Teco-tecos, jatinhos, zeros japoneses e falcões nazistas na minha imaginação. Toda sorte de aeroplanos que não me deram o azar da colisão, naquele trampinho-frila-da-puta de digitação que eu fazia pra engordar o magro salário que eu ganhava na Imprensa Oficial. A Imprensa era (é ainda) mais ali ladeira abaixo, no Cabral. Lá na Imprensa eu fazia o Nicolau. Mais prazer, menos grana. Mais poesia.
Dava arrepio e o cu fechava a cada avião que passava. Ás o livre. Cigarrinho pra relaxar. Rádio ligado. Estação Primeira. Sem Betina, nota em locução masculina: o poeta Paulo Leminski está precisando de sangue no hospital xis. Puta que o pariu.
Larguei a máquina pensando em ir correndo para o xis salvar o poeta, quando lembrei do xis da questão: um exame anterior havia meses constatou que eu era mais magro que meu salário. Eu não podia doar sangue.
Fiquei mal. Meu maldito sangue não dava nem pro vampiro, nem pra polaquinha, nem pro poeta. Ainda mais pra um poeta de peso. O desgraçado tinha que ir embora naquele maldito dia no ano da graça de mil novecentos e oitenta e nove. A rima é o centro, porém se move.
A foto na primeira página do jornal fuzilou meus olhos na manhã seguinte. Não havia mais casacos nem cossacos como em Petrogrado aquele dia. Não havia mais distraídos, nem vencedores, nem vencidos. Chegou finalmente pra ele o dia em que tudo que dissesse fosse poesia. Agora é que são elas. Ele se foi.
Acho que engordei uns quinze quilos desde então. Agora dou pra doador (êpa!). Emagreci mais um tanto. Engordei de novo. Amei, casei, descasei. Escrevi, publiquei, gravei. Casei, descasei e amei de novo. Sempre novo, toquei instrumentos e corações. Briguei. Tentei. Atentei. Viajei. Apareci e desapareci mais de metro. Dancei. Bebi, fumei e cheirei. Subi, desci, fui e fiquei. Dele, nunca esqueci. Nunca esquecerei.
Naquele dia, de noite, só chorei. Depois, cantei, cantei, cantei.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 5:45 PM
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Quinta-feira, Julho 05, 2007
Hoje faz 25 anos
Barcelona, 5 de julho de 1982
A perda da inocência
Brasil 2 X 3 Itália - Capa do Jornal da Tarde, foto de Reginaldo Manente
É também aniversário do meu saudoso pai, que deus o tenha.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:15 PM
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Terça-feira, Julho 03, 2007
Sunrise
As coisas estavam bastante razoáveis até a hora que ela apareceu. Não foi assim, do nada. Foi aos poucos. Era como uma mancha na paisagem. Daí, um feiche de luz, algo assim. Hoje é um sol.
Eu que sempre fui metido a besta e cheio de mim, estou entregue. Isso não se faz. Ainda a má fama de sempre que me persegue. E os seres todos em volta que não mais interessam. E os amigos que se mandaram pra longe.
Esporte radical isso aqui que bate fundo, esmurra minha cara contra as cordas. E não parece haver um gongo salvador. Anoitecer virou sentido figurado.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:57 PM
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