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Quebradêra F.C.

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Quarta-feira, Maio 30, 2007

A Perna-Peluda
Uma teoria antropológica e tipicamente curitibana sobre as origens do mulherio do néo-balacobaco

Não tinha medo, não tinha
Da perna cabeluda
Fazia sexo, fazia
Com seu alicate...

(Chico Science)

Ela não é hippie, não é bem isso. Se você conhece uma dessas minas que andam por aí de sandálias e vestidinhos de camponesa, adoram uma batucada e um forró, capoeira, sambão, cachaça, feirinha, você pode estar diante de uma perna-peluda.

O esoterismo aqui tornou-se high tech, e meio deixado de lado. E o rock¿n roll não é mais parte determinante, creiam, por incrível.

Parece delírio, impressão de que isso não tem nada a ver, de que sempre existiu. Mas quando falamos aqui algo próximo da linha do paralelo tropical número 30, você pode estar se perguntando como eu, mas o que aconteceu que disseminou tudo isso? Antigamente só eu gostava de samba por estas plagas, e agora parece que minhas preces foram atendidas. Cuidado ao rezar, amigo, muito cuidado.

Cenário primeiro, uma introdução
(ou: da época em que ninguém introduzia)


Houve um tempo nesta fria Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba, em que as pessoas dançavam com as paredes, vestiam preto, eram pálidas como a geada, iam em bares escuros e esfumaçados. E o pior: gostar de samba era quase uma heresia ou coisa da empregada que morava lá no Bairro Alto.

Esta vila em que até hoje as calçadas cospem na gente em dias de calor, depois da chuva. Onde dar bom dia gera desconfiança, o que quer esse cara cheio de gentileza? O carnaval, bem, o carnaval é uma desgraça onde o bloco mais tradicional carrega a alcunha de Não Agite. Realmente uma beleza.

A coisa ia pelos anos da perdida década de 1980. Nossos poetas morriam de vodca. Nossos músicos, de rock. Os menos abonados da periferia, agitavam suas cabeleiras piolhentas em clubes como o Primavera, Operário, e... entre muitos outros, o Vasquinho. Ao som de AC/DC, Nazareth, Kiss, Motley Crue, Gary Glitter. Era todo mundo roqueiro, com cara de bandido sim, e pronto. Uma beleza.

Havia punks. Poucos, mas havia, e estes eram os únicos que apreciavam o samba e algumas manifestações populares, apesar de pouco afeitos ao hippismo e de andar com aquelas caras de poucos amigos. E os skinheads, bem, uma belezinha.

A coisa mais próxima de uma autêntica perna-peluda que havia era a Gilda, personagem de rua, mendiga que batia (dava porrada) pra caramba, além de ser o único travesti barbado da história da humanidade. Morreu congelada em 1986, como cabe a um bom personagem destas plagas.

As mulheres daqui não davam pra ninguém. As que davam, não chupavam. As que chupavam, mordiam. Decididamente, uma beleza.

Cenário segundo.
A configuração que passa pelo caranguejo e termina na cachaça de mentruz.

Lá por 1987, ainda que discretamente, entra em cena um sujeito bastante esperto. O psicólogo Roberto Freire, pai de uma tal de somaterapia, teoria que consiste, entre muitas coisas legais, de enfiar (ops!) na cabeça das meninas que o negócio é fazer sexo. Sem tesão não há solução. Bom sujeito, esse Roberto. A coisa esquenta um pouco.

Anos noventa, e o mangue beat invade o sul. O negócio é misturar, olhar para as próprias raízes e não ter medo de uma percussão de atabaque batendo ao fundo de uma banda de guitarras elétricas. Uma novidade tão grande que parece que os Mutantes e Gil e os Novos Baianos já não tivessem feito tudo isso havia 20 anos. As festas no DCE da Reitoria ganham este ingrediente, junto com as emocionantes aulas de capoeira de Angola (elemento fundamental da somaterapia, eu hein?).

A coisa esquenta e a vila ferve de bandas. Melhor dizendo, aquilo que se definia como uma simples banda ou grupo de música passa a ser chamado por termos esquisitos como regional, roda, pagode, ajeitadinho, trio, xaxá, duo, combinado, miudinho, boi, sarau e sei lá mais que diabo.

Na Ilha do Mel e em alguns recantos distantes já se notava algumas meninas, que na cidade eram pacatas, caindo no forró junto com ¿aquela turma da usp¿. Sim, sim.

No antigo reduto roqueiro de nome Vasquinho (diminutivo carinhoso para a sede social do glorioso Vasco da Gama do Pilarzinho), um cearense muito esperto invade a área, e insere no cenário o forró de pé-de-serra. Um séqüito ruma ao local com a capoeira de Angola na cabeça, a batucada no coração e a somaterapia (ops!) nas entranhas. A coisa realmente esquenta.

Arte popular sim, senhor! Mas e o sujeitinho do povão que inventou tudo isso, cadê? Ingressos inacessíveis. É... realmente uma beleza.

Outro sujeito esperto inventa um bar. Sim, um bar, boteco, ladrilhos brancos na parede e tudo, como reza o figurino. E vem o ingrediente que completa este figurino/estereótipo como a cereja do bolo: a cachaça. Certo, certo. Nossa, que idéia genial.

A classe média feminina da vila descobriu a bebida que nossos pais e avós tanto apreciavam. A vila ferve. A mulherada cai na manguaça valendo. É boteco pra tudo que é lado, batucada, forró, roda de samba. Vestidinhos de camponesa e saias rodadas povoam todos os lugares (mesmo em dias frios!).

Outros caras espertos inventam um pré-carnaval no Largo. Ali você pode encontrar mulheres que nunca, nem em sonho, andariam travestidas ou fantasiadas atrás de um monte de neguinho batucando. Mas agora, né. Como tá na moda e aquela minha amiga também gosta. Estamos juntas né, amiga!? E mesmo sendo ao ar livre, nunca vi algum elemento do povo lá no meio. Acho que um ser assim se sente meio deslocado ali. Por que será?

São fenômenos esquizóides. Fenômenos que julgávamos ocorrer com jogadores de futebol apenas. Acontece por exemplo como quando a seleção ganha algum campeonato e os moços estão lá comemorando e de repente, assim do nada, vem alguém puxando um pandeirinho e tudo vira uma coisa. Todos ganham ares primatas, só no sapatinho. Macaquices à parte, cada um no seu galho, claro. Mas querer que eu me reconheça naquela gente e que todo negão tem que ficar de gestos simiescos, faz favor... é uma beleza, mesmo.

Além do quê, nunca houve folclore nessa porcaria de lugar, então o pessoal do governo e da mídia também nunca tiveram peninha da gente. Por isso, a gente é que tem peninha dos caras do nordeste e acaba tendo inveja da peninha que todo mundo sente deles também. Daí, com nossa originalidade implacável, importamos tudo.

Cenário terceiro. Elas estão por toda parte. Não tenha medo da perna cabeluda.

Está configurada a menina da perna peluda, que reza a cartilha do perna-peludismo. Em tempo, nenhuma menina perna-peluda que se preze possui pêlos nas pernas (bem, algumas... já viu, né?). Trata-se de uma alegoria. Elas estudam na Puc, usam celular de última geração, estão nos blogues, no orkut, no msn e têm uns pais que gostam de Led Zeppelin, aquela banda esquisita.

Elas não são afins de namoro sério, mas enchem o saco da gente igual qualquer moça que não seja perna-peluda ou qualquer outra. Há coisas que não mudam.

Nada mais fácil do que se relacionar com uma moça da perna peluda. Mesmo você sendo um cara ligeiramente azedo, ela te chama de chuchu. Só tome cuidado pra não entrar na onda, tornar-se um pesquisador de folclore, sair por aí procurando um boi-mamão e voltar mamado e com o chapéu do mesmo enfeitando sua nova cabecinha afeita a um Brasil distante. Acontece quando a coisa esquenta.

O problema é que tudo isso é muito bonito, tropical e tal. Mas o povão, legítimo representante da coisa toda, continua de fora da folia. Há coisas que não mudam.

Bem, agora que você já sabe qual é, dá licença que vou ali na casa da Fulana, onde parece que tá rolando um tambor interessante lá do Maranhão e aquela moça que conheci na festa do Mundaréu vai estar lá. Tchau. Quer dizer: namastê!

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:38 PM Comentários:



Sexta-feira, Maio 25, 2007

Em um site sobre pescaria tudo que cai na rede é peixe?

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 5:43 PM Comentários:



Quinta-feira, Maio 24, 2007

De janela

Tudo que tenho direito
Tudo que você tem errado
Um mesmo eu mal tratado
Assim de dar dores no peito

Ver o que você tem olhado
Enxergar além do parapeito
Este vaso de amor perfeito
Da janela do meu barraco

Ainda uma nuvem disforme
Dá-se ao céu em conceito
Enquanto você, linda, dorme

Ver estrelas todas as noites
Dedicar como um grande feito
Teus beijos aos montes

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:55 PM Comentários:



Sexta-feira, Maio 11, 2007

Job days

Sempre acontece quando vem o frio. Dias bonitos com o coração tranqüilo. E o tal monte de coisas pra fazer. Sempre acontece quando tenho coisas pra fazer: aparecem outras. Todas de uma vez. Sempre um troço complicado pra escrever. Desses que dão grana. Os piores. Sempre assim. Horas, dias, vezes que semanas, só pensando, delirando, coração tranqüilo, cuidando de coisinhas. Dessas, de passar café, ligar pra ela, conversar com a dona do elevador, comprar cigarros, comer uma coxinha lá no japonês, vendo o trânsito louco, enquanto meu filme roda em câmera lenta. Gostoso ouvir da faxineira velhinha e simpática que a gente tá com cara de apaixonado. Ah, se ela tem idéia disso aí, de paixão. De tranqüilo isso não tem é nada. Não eu. Da página branca, quase um pavor. A coisa remoendo lá dentro. Até que o neguinho senta. Super herói, deu que virou assim, de repente? Pobre do meu pior inimigo hora dessas. Fodeu. A Jeruza, secretária, diz que fico com olhos de demônio. Cinco, dez páginas de uma vez, sem respiro. Certo que fica uma bosta, vez que outra. Mas, mirando para a sensação anterior, de frio na barriga, vai que dá um alívio, isso dá. A paz deve ser isso. Conheço outra não. Deve ser. Bom, ligar pra ela de novo.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 5:37 PM Comentários:



Terça-feira, Maio 08, 2007

Amenidades, bifes e furacões

Isso aqui tá mais empoeirado que sovaco de coxa-branca, que não ergue os braços pra comemorar mais nada. Ando realmente cheio, cheio de coisas pra resolver. Carteira de motorista, leis de incentivo a cultura, videoclipe da banda, um documentário que vai vingar aí, bem fudidão. E além de tudo, a banda levou ainda a licitação para gravar um disco pelo Fundo Municipal de Cultura. Ou seja, tá tudo dando certo, o que quer dizer que tô fudido e vou trabalhar que nem um cachorro até o fim do ano. Graças a deus.

...

Caralho, difícil tirar da cabeça este Atlético e Flu. Para variar, perdi os ingressos por falta de tempo pra ir lá comprar. Esgotados. A festa vai ser de arrepiar, e o jogo, bem, o jogo... vou tomar uns calmantes, eu acho.

...

Dica gastronômica: o velho irmão punk Pardhal está cozinhando na Pastelândia. Fui com a Kathia hoje lá almoçar. É em frente à Reitoria, na XV. Sugiro o bife parmeggianna a parcos R$6,50. Galera simpática no atendimento e tal. Gostei. Grande Pardhal, agora chef Jefferson.

...

Dica do caralho: meu irmão Moser, o Sandro, ou o Polaco, ou Guti, ou Russo, tanto faz, tem um blogue dos mais legais. Enxugando as lágrimas, publico aqui, sem a permissão dele, um texto simplesmente maravilhoso. Confiram o blogue aqui, e leiam o texto:

O filho que eu quero ter
Por Sandro Moser


Andando pela Lapa certas noites daquelas bem quentes. O calor e umas cervejas na cabeça e súbito forma-se a circunstancia apropriada para sonhar acordado. Como dizia o capitão do mato, e poeta, eu "também dei de sonhar um sonho lindo de morrer..."
E a cena me ocorre num delírio, uma chuva de verão. Sou eu, mais velho e mais gasto. Mais gordo ainda e mais tranqüilo. O clima é de festa na casa. Fumaça. Casa que não sai fumaça ninguém acha graça, me faça o favor. Costela no celofane. Eu não sou de fazer isso e a cerveja vai rolando leve. "Sinfonia de pardais". Aquela coisa toda. Muitas crianças correndo. Uma delas me chama, de um jeito estranho:
_ Hei Vô...
Devo ser eu mesmo o tal Vô. E pensando bem, eu pareço mesmo com um avô. O garoto até que é bonitinho, todo de rubro-negro:
_ fale aí piá...
_ Você já teve pai? Ele pergunta.
Antes de eu conseguir explicar que aquele velhinho, sentado na varanda com o agasalho do atlético, xingando todo mundo é o meu pai a coisa toda se mexe. E num instante, o garoto sou eu, sentado no carpet marrom. Com a minha bolinha de cordinha eu estufava as redes dos estádios brasileiros mesmo sendo o Detti, "o cara que joga mais atrás". Às vezes eu era o Rafael com a minha camisa preta e amarela.
_ Mãe coloca o distintivo do Atlético na minha camisa?
_ Coloco sim filho. Tire ela que eu costuro...
_ Mas, eu não quero tirar ela Mãe
Ocorre que agora, já estou sentado no muro. Comendo a paçoca com a minha irmã. Na Rua Bom Jesus. Minha irmã era muito bonita e eu, tinha a bochecha rosa. Nosso pai era o ultimo pai a chegar. Chegava num Fiat cinza. Aquele tempo da paçoca, enquanto a gente esperava, me ensinou uma lição valiosa. Quem chega na hora é o pobre diabo. O homem que se preza chega depois.
Não posso ser injusto. Meu pai não me ensinou a chegar tarde. Se tiver algo que ele me ensinou foi isso. Chegar na hora. E mais: estar sempre presente.
O orgulho total, o melhor dos sentimentos é aquele que percorre o homem que nunca faltou com ninguém. Que nunca fez ninguém sofrer. Já fui assim. Depois do primeiro deslize a vida do homem muda. A mais cruel das desconfianças o persegue; passa-se a desconfiar de si mesmo. O meu pai não. Foi o único sujeito que eu conheço que manteve intacto este orgulho. Eu deveria explicar isto pro meu neto, no fundo do quintal.
Aquele senhor, se mexendo devagar, vestido com o agasalho do Atlético antes de ser meu pai também foi um menino. E comeu banana sozinho no pátio do colégio interno. Torcia pro maior Botafogo de todos os tempos. Com sua estrela solitária brilhante era o xerife da cidade e teve que dormir sozinho no meio da estrada naquele caminhão de banha.
Tenho que explicar que todos os que estão por ali, são de uma maneira, filhos dele. Que ele teve que correr o mundo para educar e alimentar aquela gente toda até se transformar no melhor amigo de cada um.
A educação baseada na moral, sem concessões, ainda que festiva.
Ele sempre foi o amigo de jogar sinuca, tomar chope e mijar junto. Amigo que pintou com sangue o branco do peito, encarnando de vida o Rubro negro. Que nos guiou a todos ( e todos de rubro-negro) para as coisas maiores que a vida e a morte.
Como explicar ao meu filho (espelho do espelho que sou eu) a costela do caça, os xeremengueis, o "Bacacha" as aulas de direção no Boqueirão? A ciência , a antropologia da Baixada em todos os seus níveis? Como passar isso pra frente? Qual nossa maior herança?
A resposta é simples por que é tão grande. Ser cada vez mais parecido com ele Se ele foi Didi que meu filho seja o Alex. Ensinar o meu filho a ser o que é e a ensinar o seu a ser o que sempre fomos.
Assim sonhando com meu pai, eu sonho acordado com o filho que eu quero ter...

(Sandro Moser) http://iscadefigado.blogspot.com/

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 5:42 PM Comentários:




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