insônia, depressão, música, literatura,
crônicas de alcoolismo e declarações de amor
Quinta-feira, Janeiro 29, 2004
Fim de Semana:
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 2:53 PM
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Terça-feira, Janeiro 27, 2004
Devaneio
Dia desses visitei uma fábrica. Há muito não ia a um lugar assim. Máquinas, muitas, e um mundo de gente produzindo em série. Era ferro o negócio. Peças para caminhões e máquinas agrícolas. Muito interessante.
Andei pelo meio de toda a oficina, com um óculos protetor, ao lado do dono da indústria, bastante orgulhoso dos seus métodos. O velhinho era mesmo gente fina. Havia nele um ar de simplicidade meio brejeiro, e conversávamos bastante. Ele me explicava os métodos que utilizava para melhorar a produção sem poluir, me levando a todos os cantos, laboratório, área de reciclagem, jardim, cantina, informática. Mas o que me deixou alucinado foi a oficina, o maquinário todo funcionando em série. Aqueles gestos repetidos dos homens, junto às máquinas, que Chaplin satirizou de modo tragicômico. O que acontece é que senti algo que não posso explicar. Algo como uma inveja daqueles homens. Lembrando que já trabalhei como operário.
Sempre trabalhei em ramos da comunicação, sim, é verdade. Tão verdade que meu primeiro emprego foi o de entregador de jornais. Depois fui empacotador do Diário Oficial. Sempre estive ligado ao ramo, portanto. Mas no tempo em que empacotava jornais do governo, eu era operário, e passava manhãs e tardes inteiras seguindo este mantra repetido e estranho. O da produção em série.
Por que tive inveja daqueles homens eu não sei. Acho que é porque eu estava com fome, e lembro que a hora da comida nestes tempos era algo realmente sagrado. Parecia mais gostosa depois do esforço. Realmente um prazer. Depois, sempre um honroso cigarro. Quase tive um ataque quando o simpático senhor que me conduzia levou-me à cantina. Engraçado.
Lembrei de um filme que assisti há anos, sobre a vida de Ludwig Wittgeinstein (1889-1951), filósofo austríaco, dos mais importantes do século 20, que pregava a lógica da ciência sobre todas as coisas. Avesso a afetações místicas de toda sorte. No filme, antes ou depois da segunda guerra, não lembro, Wittgeinstein sofre de um começo de esquizofrenia, salvo engano de minha lembrança. A um tempo, ele resolve ir para a União Soviética, meca de uma quase totalidade dos intelectuais da época. Ao chegar, era esperado por uma daquelas senhoras com um uniforme de cor absolutamente neutra, escuro, coisa dos bolcheviques. Ela tem excelentes recomendações de sua pessoa, e oferece a ele um cargo como professor na universidade de Leningrado (antes São Petesburgo, e agora São Petesburgo de novo). Ele recusa, veemente. Diz que veio para o outro lado da cortina para trabalhar como operário, que a verdadeira experiência socialista teria de ser sentida em quem é obviamente o foco da questão toda: o proletário. Sem isso, toda retórica marxista-leninista seria balela. Conversa pra boi dormir. E foi trabalhar como carpinteiro, ou ferreiro, não lembro. Era um filme. Não sei se isso aconteceu com o velho Ludwig em verdade. Mas é fato que ele trabalhou como jardineiro e com diversos trabalhos braçais depois, já de volta ao ocidente democrático. Wittgeinstein morreu em Cambridge, Inglaterra, onde lecionava. De câncer, na casa de seu médico.
Esta passagem me chocou. Não pelo filme, ou pela obra de Wittgeinstein, que nunca fui lá muito bom leitor de filosofia, salvo Sartre e os seus, e alguns gregos velhos. Mas me pôs a pensar profundamente. Sempre penso nisso.
O senhor, patrão, me acolhendo com presteza. Ficamos bem amigos. Fumamos e tomamos café lá fora enquanto ele me mostrava o rio que conseguiria livrar da poluição, se o quartel militar ao fundo da fábrica tomasse as mesmas medidas que ele. E minha cabeça lá, na oficina.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:46 PM
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Segunda-feira, Janeiro 26, 2004
Petáculo!
Hoje estaremos no Casarão. Aos nossos fãs de todo o planeta que estiverem de passagem por esta fria e cinzenta e querida cidade de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba, aviso que o espetáculo não será dos melhores. Início de temporada, ainda haverá resquícios de um final de ano não muito saudável. Mas quem quiser enfrentar o mau tempo e comparecer, é grátis.
Nosso scratch adentrará o tapete verde com
Alan, Wellington, Neil, Pipo, este que vos escreve e um outro que não lembro agora.
O outro scratch não interessa. Os outros são os outros.
Nós X Eles
Casarão ¿ Rua do Herval, S/N. Próximo ao Hospital Cajuru. Cristo Rei.
20 horas.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:18 PM
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Terça-feira, Janeiro 20, 2004
Li lá na
De Inverno. O governador é um idiota.
Carolice como política cultural de Estado
Como diz um velho ditado, assim como gosto, religião e política não se discute, porque cada um tem o seu (gosto, religião e posição política)
lamentavelmente, porém, nesse momento no Paraná, esses assuntos acabaram se misturando, e indiretamente, atingindo a área em que a gente milita - a da música independente
pra quem não sabe ou não se lembra, recentemente o nosso governador mandou tirar do ar dois programas da TV Educativa - o Ciclojam, e o Skate session - sob o argumento de que eles não tinham "o perfil" que ele desejava para a programação da tevê
é bom lembrar que tanto o Ciclojam quanto o Skate Session eram produções independentes - ou seja, não custavam um centavo para o Estado - pois eram feitos graças a iniciativa de seus produtores
no caso do Ciclojam - que eu conheço mais de perto - a história é ainda mais absurda, pois se tratava de um programa reconhecidamente com grandes serviços prestados a música local, tendo levado apresentações de dezenas de bandas e grupos ao ar - colaborando assim para a divulgação desses trabalhos e a formação de um público
além disso, vários programas já gravados não foram levados ao ar por conta do inexplicável e repentino cancelamento do programa
até porque, era um dos poucos programas que fugia do proselitismo político e do culto ao personalismo que monopolizou a programação da TV Educativa - uma tv pública - portanto do Estado e não de propriedade do governante - desde que o atual governo chegou ao poder
por muito menos, o governo de Santa Catarina foi proibido pela Justiça de utilizar veículos públicos estaduais para promoção político pessoal
pois bem, se não bastasse isso - que por si só já deveria ter sido alvo de reações por parte de quem está envolvido - hoje se confirmou oficialmente uma história que já andava circulando por aí
a de que o governador quer criar - utilizando a estrutura da TV Educativa - um festival de música gospel.
Veja aí a notícia, divulgada pela agência oficial do governo
O governador Roberto Requião recebeu nesta segunda-feira (19) cerca de 30 pastores evangélicos de Curitiba e Região Metropolitana. Durante a reunião, Requião falou de parcerias que estão sendo realizadas com as igrejas evangélicas, como a possibilidade da criação de um festival de música gospel, na Televisão Educativa do Paraná.
"Temos o interesse em valorizar a música cristã, que não é apenas evangélica mas, também católica. Este espaço para a música gospel seria em favor do crescimento e surgimento de grandes cantores", declarou o governador.
o que se depreende dessa história? é que em pleno século XXI, nosso governador continua acreditando que música pop, rock, enfim, cultura jovem, não é cultura;
mas música gospel - que não tem nada a ver com o gospel original criado pelos negros norte-americanos, é bom registrar - isso sim é cultura.
Nada contra a música gospel, evangélicos, católicos, umbandistas ou o que quer que sejam; particularmente acho que Estado e religião não se misturam. O Estado, como diz a própria Constituição, tem que ser eminentemente laico - ou seja - independente de crenças religiosas, até porque, quem governa, governa tanto para os religiosos quanto para os ateus. Isso é um dos princípios do regime republicano e democrático. Não impede que o governante tenha suas crenças pessoais, mas ele não pode usar o cargo para impor isso aos seus governados.
Além disso, nada contra a Educativa ter um programa de música gospel. Só não entendo porque então, se acabou com os programas voltados para a cultura pop/jovem. Será apenas porque se tenta vender uma imagem de "carolice" que pega bem entre os circulos mais conservadores/e/ou iletrados da sociedade?
Provavelmente.
Acho que a Educativa - como veículo do Estado - e não do governo - deveria abrir espaço para todas as manifestações culturais produzidas aqui, seja gospel, pagode, mpb, rock, música eletrônica, fandango, e o que mais ouver. O problema é que se forem fazer isso, vão ter que diminuir um pouco a auto promoção e o proselitismo que tomou conta da emissora. E aí, "deus" não vai querer..., entendeu?
preocupa, também, o silêncio dos agentes culturais direta ou indiretamente envolvidos nessa história; gente que faz muita pose, mas que na hora em que o bicho pega, enfia o rabo entre as pernas e fica quietinho (é bom deixar claro que quando digo isto, não estou acusando, julgando ou me referindo a ninguém especificamente, mas a toda a classe "artística", formadores de opinião e imprensa de um modo geral); estamos caminhando para um estado autoritário e populista, onde a palavra e a vontade de um prevalece sobre a de todos e ninguém fala nada pra não ter o ônus de confrontar quem está por cima (hoje, amanhã pode não estar mais)
é triste...
pois enquanto em outros Estados, regiões do País (como SP, RJ, Goiânia, etc) onde o poder público já acordou para a importância de apoiar e incentivar o crescimento de mercados independentes de produção cultural, aqui no Paraná, parece que estamos regredindo.
Até quando?
Ivan Santos
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:29 PM
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Quinta-feira, Janeiro 15, 2004
Uma tarde na City Light Books
Meu amigo Eduardo Roquenroll esteve em São Francisco lá por 1996, depois de passar um tempo em Nova Iorque, tempo que o Cassiano trabalhava como dog walker (levando cachorros de madame para passear) e o Vinícius lavava pratos em um restaurante tailandês, no Brooklyn.
Ele apareceu na City Light Books, meca dos beatniks, livraria do Lawrence Ferlinghetti. O velhinho estava lá, como sempre. O Edu olhando umas coisas, procurando por Ken Kesey (Um Estranho no Ninho) e outras coisas que ele gosta. Daí o velhinho chega, fala com ele e tal. Ah, você é do Brasil? Só um instante. Foi correndo ao fundo da loja e trouxe uma edição de Capitães de Areia, de Jorge Amado, traduzida para o inglês. O Edu falou: sim, Jorge Amado, conheço, grande e querido escritor baiano, mas não está entre meus favoritos, etc. ... Ao o que Ferlinghetti argumentou: não é esse o problema. O que me intriga é saber se tudo isso aqui é verdade. É?
É, respondeu o Edu.
Putz, sério? Incrível. Muito bom!
Ele é legal e vende muito no Brasil, respondeu o Edu. Blá blá blá.
Eduardo foi embora e me contou essa história dia desses, ao balcão do Roxinho. Na hora fiquei pensando: Puta que Pariu! A mais pura realidade brasileira seria suficiente para incluir um escritor como Jorge Amado, realista, no rol do realismo fantástico latino-americano. Não é a literatura dele, é o objeto que ele enfoca. Todo mundo sabe que eu gosto do Jorge, mesmo ele não estando entre meus favoritos, etc. Mas essa é muito louca, mesmo. Este país é muito foda.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 2:30 PM
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Terça-feira, Janeiro 13, 2004
Alex entrevista - parte 2 (leiam a parte 1 no post abaixo)
Alex-Nossa vaidade falou mais alto.
PLAYBOY - Quando fala em "nossa vaidade", você está se incluindo?
ALEX - Me incluo, estava lá. Perdi junto com todo mundo. Devo ter feito várias coisas erradas também.
PLAYBOY - Uma das cenas mais marcantes das Olimpíadas foi a cabeçada que o Lúcio deu no Roger na derrota contra Camarões. O que foi aquilo?
ALEX - O lance foi o seguinte. O Roger é um cara muito habilidoso. Estava passando por uma grande fase no Fluminense. Nos treinos, ele estava jogando demais, sempre muito técnico. Aí os zagueiros começaram a chegar junto. Principalmente o André, do Santos, e o Lúcio. O Brasil estava perdendo. O Lúcio descia com a bola, tocava para o Roger, partia sozinho e não recebia. Isso aconteceu uma, duas, três vezes. Na quarta, o Lúcio tocou para o Roger, desceu sozinho e não recebeu a bola. O juiz marcou uma falta no Roger. Eu estava perto e vi o Lúcio cobrar satisfações, queria saber por que a bola não estava chegando. O Roger não gostou e os dois acabaram discutindo. Até que o Lúcio deu a cabeçada.
PLAYBOY -Teve um caso nas Olimpíadas que me chamou a atenção. Você treinava cruzamentos quando o Luxemburgo disse algo como "Alex, acorda aí". Você se agachou e falou, só para a bola, um raivoso "filho da puta, canalha". Você estava uma fera.
ALEX - Sempre gostei do Vanderlei, mesmo antes das Olimpíadas. Essa é uma reação de campo normal. Hoje continuo xingando o Vanderlei em muitos momentos, como xinguei o Felipão e como fui xingado pelos dois.
PLAYBOY - Você xingava o Felipão quando era substituído no Palmeiras?
ALEX - Direto. Quando o Palmeiras estava ganhando, saía eu para entrar o Galeano. Se o time estivesse perdendo, eu saía para entrar o Euller. Teve um jogo contra o Flamengo, pela Copa do Brasil, que a gente precisava ganhar de qualquer jeito por dois gols de diferença. O Flamengo fez, a gente também. Flamengo 2 a 1. A gente 2 a 2. O único resultado que servia eram dois gols de diferença. O Felipão era um doente. Tirava todo mundo de trás, botava todo mundo na frente. E bola na área, vamos ganhar o jogo. E ganhamos. A não ser numa situação extraordinária como essa, o substituído era sempre eu. Treinador ganha jogo pra caramba com uma substituição, com uma observação no intervalo. Mas também perde jogo demais, faz muita cagada. Tira uns jogadores que você não entende e perde a partida.
PLAYBOY - A versão 2003 de Alex parece mais ágil. Você está mais magro?
ALEX - Nos últimos dois anos não consegui entrar em forma por causa das transferências de clube. No ano passado, consegui trabalhar bem desde o início, cheguei ao peso ideal [73 quilos e meio]. Mas o que faz diferença é o percentual de gordura. Estava entre 10 e 11% e o objetivo era ficar em 9,5%. Joguei em 2003 sempre abaixo disso. A vantagem se dá no tempo de reação nas jogadas. A cabeça raciocina uma coisa e as pernas conseguem executá-la.
PLAYBOY - Até que ponto esse percentual de gordura mais alto gerou a pecha de jogador molengão e aquele apelido maldoso, o Alexotan?
ALEX - Foi um jornalista paulista idiota que começou com isso e outros levaram no embalo, mas isso é passado. O fato é que eu jogava umas partidas boas e outras ruins. Não conseguia uma regularidade. Acho que é porque eu arriscava pouco, ficava preso. Não tentava determinado drible, estava meio travado. Em 2003 me soltei.
PLAYBOY - Por que você não deu certo na Europa?
ALEX - Porque o Parma não comprou meu passe do Palmeiras por 15 milhões de dólares [em meados de 2000] para que eu jogasse lá. O plano deles era recuperar o que investiram me emprestando a outros clubes. Assinei um belo contrato com eles, mas iria ficar anos pulando de galho em galho. Não era negócio pra mim. Perdi dois anos da minha carreira nisso.
PLAYBOY - Morar na Itália foi ruim?
ALEX - Não, imagina! Parma é maravilhosa. Voltei a ser criança lá. Andava de bicicleta, morava em um hotel no centrinho. Podia ficar tranqüilamente cinco temporadas lá. Tinha o Taffarel, o Adriano, o Matuzalém, jantávamos juntos. Na primeira fase, eu fui sozinho. Depois a Daiane foi e passeamos bastante, fomos a Veneza, Milão. Consegui aprender um pouco de italiano.
PLAYBOY - O futebol italiano não é o melhor lugar do planeta para meias criativos como você, não é verdade?
ALEX - Futebol é no resto do mundo, lá o nome é calcio [risos]. O Taffarel brincava com isso. Lá é difícil porque são duas linhas muito fixas de quatro jogadores na defesa e no meio e dois no ataque. O meia não tem vez. Olha o Zidane. A fama que ele tem hoje no Real Madrid jamais apareceu no tempo de Juventus. Por mais craque e cerebral que ele seja. Lá não existe meia ofensivo. Quantos meias tem a Itália? O Del Piero [ídolo da Juventus], que poderia jogar no meio, é atacante. O Totti [da Roma], o mesmo. Os italianos prezam muito esse esquema deles. O 1 a 0 é uma beleza, prezam muito o fato de não tomarem gols.
PLAYBOY - Você quer voltar a jogar na Europa. Fora a Itália, o que seria uma boa proposta?
ALEX - Se puder escolher, a Espanha. É um campeonato muito interessante.
PLAYBOY - Por que é tão difícil alguns brasileiros se adaptarem na Europa?
ALEX - O primeiro passo é você ir querendo ficar. Quem vai e deixa a cabeça no Brasil tem tudo para se dar mal. É o caso do Deivid [que saiu do Cruzeiro em 2003 para o Bordeaux], que ligava todo dia para a gente. Disse a ele que qualquer novidade importante do Brasil a gente contava. Falei que ele precisava se ligar mais nas novidades da França, do Bordeaux, esquecer um pouco as coisas do Brasil. Já vi muito jogador que pensa em se transferir, ganhar um bom dinheiro na transação e voltar. Cria um caso qualquer, o clube o manda embora.
PLAYBOY - Já dá para parar com o futebol? Você já conquistou financeiramente o que um dia planejou?
ALEX - Pô, passei do que eu projetei. As dificuldades na infância e adolescência eram enormes. Tudo o que queria era sair do aluguel, dar uma condição melhor aos meus pais e poder sustentar minha família. Tenho tudo isso. Poderia parar agora e viver bem. Tenho meu apartamento em Curitiba, a casa dos meus pais, uns dois ou três terrenos e o resto é dinheiro que está guardado em banco.
PLAYBOY - O estereótipo do boleiro é cruel. Jogador é burro?
ALEX - Não. Tem médico, jornalista e jogador burro. Conheço gente que sabe duas, três línguas, tem duas faculdades nas costas e possui um raciocínio medíocre. Jogador é desinformado e desinteressado. Mas melhorou muito do tempo que comecei para cá. Nem todos se interessam por leitura. Tem um menino que concentra comigo no mesmo quarto, o Márcio, que é um exemplo disso. Compramos juntos uma biografia do Zico. Eu li em três dias. Já tínhamos passado por algumas concentrações, eu já tinha lido outros dois ou três livros e ele estava lá pela décima página. Claro que ele tem alguma dificuldade e precisa exercitar.
PLAYBOY - Pelo menos ele não atirou o livro pela janela. Você já passou por essa situação, certo?
ALEX - Eu dividi no tempo de Palmeiras o quarto com o [atacante] Oséas. Ele tinha umas trancinhas e uma enorme preocupação com os cabelos. A rotina dele era chegar no quarto, tirar a roupa e ficar de cueca. Se enrolava em um lençol e cuidava do cabelo...
PLAYBOY - São cenas muito fortes. Não sei se o leitor está preparado para imaginá-las...
ALEX - [Risos.] É, sem dúvida. Um dia eu estava lendo A Estrela Solitária, a biografia do Ruy Castro sobre o Garrincha, e o Oséas resolveu conversar. Acho que estava se sentindo solitário. Como eu não estava dando muita atenção, ele pegou o meu livro e o atirou pela janela do quarto.
PLAYBOY - Você já viu casos de doping na sua carreira?
ALEX - Vi o do Dinei [atacante que jogou no Corinthians e Coritiba]. O Dinei foi pego no antidoping em 1996. Naquele dia, depois de Coritiba e Juventude, eu e ele fomos sorteados. Foi um desespero grande do Dinei. "Doutor, se eu não mijar, o que acontece?"
PLAYBOY - Ele estava indo para o matadouro...
ALEX - O Dinei tinha cheirado na quarta-feira. Ele estava sem clube, o Coritiba o contratou na quinta, chegou na sexta e jogou no domingo. O time estava sem atacante, botaram ele. Jogou bem naquela partida, ajudou a gente. Eu fiz o primeiro gol, acho que ele fez o segundo. E eu fui no antidoping com ele. E ele lá na salinha, falando: "Não consigo fazer. Tenho um vôo marcado para São Paulo. Vai dar merda, vou perder esse vôo". No final, acabou fazendo o exame. Depois falei com o Dinei e ele me contou que cheirou numa festa, que estavam lá outros jogadores. Depois eu fiquei sabendo quais eram esses jogadores.
PLAYBOY - Quem?
ALEX - Jogadores de grandes clubes. Ele foi à imprensa pra contar a história dele, para assumir e tal. Muito legal isso. Estranhei o caso do Giba do vôlei [pego com maconha no exame antidoping]. Porque eu conhecia o Giba de Curitiba e nunca tinha ouvido falar nada dele. Depois ouvi a sua história e liguei com o caso do Dinei. Não que os dois tivessem o mesmo perfil. O Giba estava sozinho na Itália, no frio e tal. Tinha se separado da esposa.
PLAYBOY - Você já viu drogas em festas de jogadores?
ALEX - Já, várias vezes. Fui a uma festa em 1996, lá pelo início do ano. Vários jogadores do Coritiba presentes. A gente conversando e os caras sumiam. Que porra é essa, aonde esses caras vão? O samba comendo solto e os caras sumiam. Aí vinham os jogadores, tomavam os instrumentos dos sambistas e os sambistas sumiam. Não estava entendendo mais nada. Pensei, o próximo que sumir eu vou atrás. Os caras subiam, tinha um terraço, tipo um solário. E os caras cheiravam pra caralho. Desciam pra festa doidões.
PLAYBOY - Na época você não teve curiosidade?
ALEX - Nada. Convivi com isso desde pequeno. Onde eu morava, tinha um campo de futebol de areia. Quatro contra quatro, mais o goleiro. Sentava no muro da minha vó e os caras falavam: "Pô, Alex, tá valendo três baseados". Uns baseados grossos, grandões. "Segura pra mim, se a polícia fizer uma batida, você esconde". Beleza, segurava, colocava no bolso. Acabava o jogo e eu devolvia para os caras. Papelote de cocaína eu vi vários. Uma vez um delegado deu uma batida no bairro, revistou todo mundo. E todos com maconha, haxixe no bolso. O cara falou pra mim: "Pô, até você?" Falei que estava ali porque conhecia os caras desde moleque. Não ia largar meus amigos só porque fumavam maconha.
PLAYBOY - Você já presenciou cenas de homossexualismo no futebol?
ALEX - Várias vezes. Joguei em clube que acabava o treino, dava dez minutos e o diretor aparecia no vestiário. Cruzava os braços e ficava apreciando a cena de 20 homens pelados no vestiário. Tinha jogador sacana que ia lá conversar pelado, dava tapinhas nas costas do cara. A cara de felicidade do diretor era uma coisa absurda.
PLAYBOY - Nos tempos de Coritiba, algo memorável?
ALEX - Sim. Tinha um massagista que todo mundo dizia que era veado.
PLAYBOY - Massagista é um problema. Bota a mão na massa...
ALEX - [Risos.] É um problema, trabalha em uma área um tanto perigosa. Para chegar ao estádio Couto Pereira, eu e outros jogadores atravessávamos o centro de Curitiba. No caminho, tinha uma praça chamada Santos Andrade, que era ponto de prostitutas e travestis. Um dia a gente viu o tal massagista lá em ação. O problema é que o cara estava aliciando jogadores também. O massagista e o jogador foram descobertos pela diretoria e afastados.
PLAYBOY - Conta mais, Alex.
ALEX - Conheci um outro jogador que até namorado tinha. Ele jogava no Atlético-PR e namorava um cara do meu bairro. Era o veadão do bairro. Os dois freqüentavam o ponto de droga do pedaço, não sei como o jogador não foi pego em algum antidoping.
PLAYBOY - Você chegou a ver alguma sacanagem de chuveiro?
ALEX - Não, vi uma brincadeira de vestiário. Tinha um jogador meio exibicionista, que adorava desfilar pelado pelo vestiário e se vangloriar do próprio corpo. Um belo dia ele chegou na frente de um outro jogador que estava sentado no banco. O outro cara pegou no pau dele e ficou longos segundos segurando o bicho, olhando olho no olho. O exibicionista ficou assustado, se enrolou na toalha, foi para o chuveiro e, a partir daquele dia, nunca mais desfilou pelado ou brincou disso. Esses dias falei com ele por telefone e lembrei da história. Ele deu risada, mas cortou a conversa.
PLAYBOY - E a sua primeira transa, como foi?
ALEX - Eu tinha um tio, que na verdade era um sobrinho do meu pai e portanto primo. Mas era mais velho, por isso a gente chamava ele de tio. Ele foi morar na nossa casa. Eu tinha uns 14 anos, meu irmão uns 9 e ele uns 20 e poucos. Era um cara forte, fazia capoeira, era muito engraçado, todo mundo o adorava. O apelido dele era Bugão e saía com todas as mulheres do bairro, sobretudo com as casadas. Numas férias dele, dava o horário do almoço e ele sumia. Eu e meu irmão resolvemos segui-lo. Vimos que ele esperava um cara do bairro sair pra trabalhar e batia na casa do cara. A figura era casada e tinha uma filha de uns 15 anos. Ele passava as tardes nessa casa com a mulher do cara. Aí falei pra ele: "Ih, isso vai dar uma merda. Se o cara descobre, ele te mata. Você é um doente!" Ele só gostava de mulher mais velha, casada. Não se interessava por mulher livre. Aí ele prometeu que me levava àquela casa um dia. Fiquei esperando. Estava louco por aquilo.
PLAYBOY - Seu tio era a grande esperança então?
ALEX - Era. Um dia meu tio passou por mim e falou: "Te prepara porque é amanhã". Quase não dormi com aquilo. Fomos lá. Imaginava que ele tinha arrumado a menina pra mim. Mas era a mulher que estava me esperando. Fiquei pensando na sacanagem daquilo, eu jogava bola com o marido dela no campinho ao lado da minha casa. Passamos uma meia hora de conversa e o meu tio foi pra cima dela. Começou a comer a mulher. E eu pensando comigo que estava fazendo o papel de palhaço, que iria ver aquilo e não faria porra nenhuma. Para minha surpresa, a filha já estava sabendo do esquema e apareceu logo depois. Ela me levou para uma outra salinha. Eu não sabia nada, mas a menina foi me mostrando, dizendo "faça assim, faça assado". E assim foi.
PLAYBOY - Como você encara o fato de não ter ido para a Copa de 2002?
ALEX - É estranho quando revejo o Vampeta dando pirueta no Planalto, quando vejo as imagens do pessoal comemorando. Eu gosto muito de samba, só que não consigo escutar a música do Zeca Pagodinho Deixa a Vida Me Levar [um dos hits do penta]. Eu estava no carro de bombeiros do Cruzeiro, no dia em que conquistamos o Brasileiro, e tinha um trio elétrico atrás. Só tocavam duas músicas, o hino do Cruzeiro e a música da Ivete E Vai Rolar a Festa [o outro hit]. Via o pessoal cantando e falava: "Não vou cantar essa porra, não". São as únicas coisas que, de repente, eu associo com a Copa.
PLAYBOY - Por que você não foi ao Mundial?
ALEX - Opção do treinador.
PLAYBOY - Você já tentou entrar na cabeça dele?
ALEX - Já, várias vezes. Já fiz uma retrospectiva do que seria o Felipão que eu conheci, do Felipão da Copa do Mundo, do Felipão de hoje, mas não consigo entender. Eu me faço duas perguntas: por que não fui e por que alguns foram? Não cheguei a nenhuma conclusão. Algumas coisas me causaram surpresa. Pouco antes da Copa, jogamos contra a Islândia, em Cuiabá. Era o primeiro jogo do Ânderson Polga e do Kaká. Fizeram estardalhaço com as atuações deles. O Polga fez um gol, o Kaká marcou outro. Só que nós jogamos contra ninguém. Os caras todos gordos, todos ruins. Uma vergonha. Nesse dia eu conversei com o Felipe. Ele falou: "Você não inicia o jogo, mas eu já te conheço". Na minha cabeça, entendi que o treinador queria ver os outros e eu já estava garantido. Fui pego de surpresa quando saiu a lista. Meu nome não estava. Fui mais surpreendido ainda quando vi o nome de alguns jogadores. Quando era treinador do Palmeiras, o Felipe comentava sobre alguns dos convocados: "Ah, fulano é isso, fulano é aquilo. Se eu fosse o treinador, aquilo não aconteceria". Não dá para saber o que aconteceu.
PLAYBOY - No dia que saiu a lista, o que você fez?
ALEX - Fiquei em casa, arrumei minhas coisas. Eu estava no Palmeiras e a gente tinha acabado de perder para o São Paulo pelo famigerado regulamento dos cartões [um dos critérios de desempate naquele Campeonato Rio-São Paulo era cartões vermelhos e amarelos. O time mais disciplinado se classificava].
PLAYBOY - Você deu uma porrada na porta, algo do gênero?
ALEX - Não, não é muito do meu feitio. Fiquei mal. Quem me conhece sabe como é que eu fico nessas situações. Falava pouco, brincava pouco. Na final da Copa, eu estava na casa do Mozart, que joga no Reggina, da Itália. O Mozart tem casa em Morretes [entre a capital e o litoral do Paraná]. Não vi a final porque um dia antes nós jogamos uma pelada e fizemos um churrasco. Chegamos de madrugada na casa dele e fomos dormir. Acordamos com os fogos, Brasil campeão, todo mundo festejando, eu com a cara amarrada. Aí um cara chegou: "O Brasil foi campeão, você não tá feliz?" Só cumprimentei o Mozart, a esposa, falei que estava indo para Curitiba. E o cara: "Pô, o Brasil é penta!" E eu de cabeça baixa. Até uma hora em que o Mozart falou para o amigo dele: "Você é doente. O Alex jogou as eliminatórias, os amistosos. O Felipão foi treinador dele por quatro anos e ele não foi. Quer que o cara esteja soltando foguete?" Jamais ia torcer contra o Brasil, mas eu de maneira nenhuma iria comemorar aquele título.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 12:03 PM
Comentários:
Esta é a entrevista deste mês da Playboy... ,
com o Alex. Me identifico com este piá. Temos muito em comum, sabe? Ele além de jogar muito (sic), é um cara muito legal. E modesto, sabe? Vou com a cara dele faz tempo. He he he.
Alex
O craque brasileiro de 2003 impressiona quando tira a chuteira. Fala sobre drogas, vaidades e até gays no futebol. E revela: não comemorou o penta
Por Sérgio Xavier
Existem duas unanimidades sobre Alexsandro de Souza, o Alex do Cruzeiro. Ele é, disparado, o melhor jogador em atividade no país. É também um sujeito tímido, calado, careta, sem coisas a dizer. A primeira só discute quem não assistiu ao futebol no ano passado. A segunda é um mito, como prova esta entrevista a PLAYBOY.
De careta, Alex não tem nada. Embora nunca tenha provado droga alguma, participou de festas de jogadores regadas a pó. Em Curitiba, quando era menor de idade, guardava baseados para os amigos. Uma vez o delegado deu uma batida e perguntou: "Até você?" Ouviu de Alex que não iria abandonar os amigos só porque eles fumavam maconha.
Tem mais. O suposto caladinho conquistou uma menina de 12 anos quando jogava no Coritiba. Era a filha do cartola que comandava o clube... Virou sua esposa, por quem é apaixonado completamente até hoje.
Genial com a bola nos pés, Alex impressiona quando descalça as chuteiras. Talvez seja impossível achar quem tão bem analise a cabeça de seus colegas boleiros. Sem pudores, narra a guerra de vaidades que já presenciou em equipes como o Palmeiras de 1999 e a seleção nas Olimpíadas de Sydney. Assume que, preterido, não assistiu à final da Copa de 2002 nem comemorou o penta. Sem falar nas histórias hilariantes que tem para contar... Como no dia em que o grandalhão Oséas atirou um livro pela janela do quarto do hotel. Ou um atacante do Cruzeiro que foi patolado em pleno vestiário..
Sob sua liderança, o Cruzeiro venceu o Brasileiro e a Copa do Brasil no ano passado, feito nunca alcançado por clube algum. Ele disputou 63 partidas na temporada, marcou 39 gols, deu passe para outros 39. Com extrema facilidade, aos 26 anos, papou o Oscar do futebol brasileiro, a Bola de Ouro, que é dada pela revista Placar ao melhor jogador do Brasileirão.
O curioso é que o articulado curitibano não é alguém da classe média que desabou no mundo do futebol. Filho de uma cozinheira e de um pintor de parede, nasceu em Colombo, na periferia da capital paranaense. Aos 14 anos, era o seu salário mínimo ganho num time de futsal que pagava as contas da casa enquanto o pai e a mãe estavam desempregados. O talento não demorou para render frutos maiores. Alex foi um dos responsáveis pela ascensão do Coritiba à primeira divisão, em 1995. O Palmeiras o levou em 1997 e o meia franzino logo virou ídolo da torcida alviverde. Três anos depois, estava na Itália, no Parma. E aí começaram os problemas.
Primeiro foi a recepção fria na Europa. O time italiano mostrou-se mais interessado em repassar Alex para outros clubes do que em aproveitá-lo. Depois veio o fracasso nas Olimpíadas de Sydney. Alex afundou em um Flamengo que já andava mais para lá do que para cá em 2000, fez um semestre razoável no Palmeiras e teve uma passagem discreta pelo Cruzeiro em 2001. Era tido pela imprensa esportiva como o craque-vagalume, aquele que brilha e desaparece no jogo. Ou, numa versão mais maldosa, o Alexotan. Apesar de ser elogiado pelo técnico Luiz Felipe Scolari, com quem trabalhou no Palmeiras, não foi convocado para a Copa de 2002.
No final daquele ano, o técnico Vanderlei Luxemburgo fez uma aposta com a diretoria do Cruzeiro, que não queria investir no futebol do craque: "Se ele não der certo, eu pago o salário dele". Como se sabe, não foi preciso...
Para entrevistar Alex, convocamos o diretor de redação da revista Placar, Sérgio Xavier Filho. Foram três encontros em um hotel da região central de São Paulo. Suas impressões:
"Já tinha encontrado Alex duas outras vezes em 2003. Na primeira, em um programa da ESPN Brasil. Alex matou a pau. Surpreendeu repórteres rodados pelo seu raciocínio rápido. Na segunda, foi um almoço no Terraço Itália, uma das mais belas vistas de São Paulo. Ele escolheu o vinho. Conversa agradável. É nítido que estamos conversando com um jogador bem acima da média."
Simpático até com os mais impertinentes fãs, Alex deixa escapar sorrisos a toda hora. A fase é boa. O melhor ano de sua vida foi de longe 2003. Não só pelas taças, gols, reconhecimento nacional. Depois de algumas tentativas frustradas, a mulher, Daiane, 20 anos, engravidou. Em meados deste ano, ele marca mais um golaço.
PLAYBOY - Você se acha um craque?
ALEX - Não. Me considero um bom jogador, com vários defeitos. Alguns eu já consegui corrigir. Outros...
PLAYBOY - Que defeitos?
ALEX - Meu poder de marcação poderia ser melhor. Mas craque, craque, eu não me considero. É um passe adiante. A gente teria que pegar o dicionário e rever o conceito de craque.
PLAYBOY - Quem é craque?
ALEX - Eu gosto muito de ver jogar Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Djalminha, o tcheco Nedved, da Juventus, o Henry, do Arsenal. Mas craques mesmo, se eu pudesse citar três, são Zidane e os dois Ronaldos.
PLAYBOY - Quando você desconfiou que era jogador de futebol?
ALEX - Tinha medo de jogar com os caras mais velhos. Quando você é menino, joga mais na sua faixa de idade. Em 1994, eu era juvenil e o treinador dos juniores me puxou para jogar no Coritiba. Aí eu desandei a fazer gols. Eu tinha 16 anos. Não me achava um belo jogador. Mas me considerava em condições de jogar com os caras.
PLAYBOY - Antes você teve uma passagem pelo futebol de salão. Como era a sua vida nessa época?
ALEX - A gente morava numa cidade que se chama Colombo. Fica a uns 15 quilômetros do centro de Curitiba. Meu pai era pintor de parede. Quando tinha uns dois anos de futebol de salão, meu pai e minha mãe ficaram desempregados. Eu jogava na AABB [Associação Atlética do Banco do Brasil]. Na época, tinha um diretor que era dono de um supermercado. Então ele me dava um vale para ser gasto no supermercado. Assim conseguia levar comida para casa. E também me davam uma ajuda financeira, quase um salário mínimo. Até minha mãe e meu pai se ajeitarem de novo, foi isso que segurou um pouco a onda.
PLAYBOY - Aí, você saiu da AABB para fazer teste no Coritiba.
ALEX - Não, eu já tinha ido antes ao Coritiba, só que eles me acharam muito pequeno. De 1987 a 1991, só joguei salão. Eu achava o futebol de campo uma chatice muito grande. Todos eram muito pequenininhos. Para chegar ao gol, era uma distância muito grande. O Coritiba era uma chatice também. Era longe, um campo cheio de terra. Você chegava lá e tinham 300 moleques. Então não era uma coisa que me agradava. Em 1991, saiu um anúncio no jornal dizendo que o Coritiba ia para um campeonato brasileiro das categorias de baixo. Procuravam jogadores para esse time. Fomos vice-campeões. A partir daí, continuei em paralelo no salão e no Coritiba.
PLAYBOY - A fase do Coritiba era péssima, estava na segunda divisão, não?
ALEX - Chegou a cair para a terceira. Em 1995, enfrentou uma crise enorme. Devia dois ou três meses de salários para nós. Um triunvirato assumiu o clube. Eram três empresários, o Édson Valari, por sinal meu sogro hoje, o Sérgio Prosdócimo e o João Malucelli.
PLAYBOY - Por falar em sogro, você pode explicar melhor essa passagem? Parece que estamos diante de um caso de pedofilia...
ALEX - [Risos.] O que acontece é o seguinte. O Coritiba se concentrava em um hotel da família do meu sogro. E no domingo todos os familiares dele iam lá, os primos, a mãe e a filha dele, Daiane. Sempre nos encontrávamos, mas nunca trocamos um oi, nunca dei um bom dia. O tempo foi passando, nós subimos para a primeira divisão. Foi o dia em que me senti um herói. Fui carregado do Couto Pereira [estádio do Coritiba] até um restaurante nos braços da torcida. Tinha recém-completado 18 anos. Me achava dono da cidade. E, quando nós chegamos lá, a festa já estava comendo solta, a diretoria já estava bebendo pra caramba. Até que o pai dela chegou para mim: "Tenho aqui sua fã número 1, ela quer te conhecer".
PLAYBOY - Você tinha 18 anos e ela...
ALEX - Ela tinha 12, mas eu não sabia disso. Só que a fã era a mãe dela! Aí entrou o ano de 1997. Eu estava praticamente vendido ao Palmeiras. Um dia vem ela com um monte de amigas para pedir autógrafo. Foi a primeira vez que eu conversei com ela. A gente começou a conversar por telefone. Pensei que ela tivesse 16, 17 anos e sabia que precisava falar com o pai dela. Toda hora que eu me aproximava dele, chegava alguém da comissão técnica ou algum jogador. Aí eu ligava para ela falando: "Não deu ainda".
PLAYBOY - Você estava apavorado?
ALEX - O Coritiba era pequeno. Todo mundo conhecia a gente. Uma hora ou outra todo mundo iria saber. Um dia resolvi encarar. Avisei o supervisor, o Paulinho Alves: "Na hora em que o doutor Édson chegar aí, avisa que eu preciso falar com ele". O clube vivia uma crise financeira, sempre atrasava e era ele quem resolvia. Ele pensou que eu queria falar sobre dinheiro.
PLAYBOY - Como foi a conversa?
ALEX - Gaguejei no início. Disse que já tinha um mês e meio que eu estava me encontrando com a Daiane, que a gente queria namorar. Aí ele se assustou e me perguntou: "Pô, mas você sabe a idade dela?" Eu falei que nunca tinha perguntado, que era uma falta de educação tremenda [risos]. Tomei um susto. Poxa, 13 anos? Como eu estava vendido ao Palmeiras e de partida para São Paulo, eles acharam que o namoro iria parar por ali. Não parou. Nas folgas eu voltava para Curitiba.
PLAYBOY - Mas eles não deixavam ela vir para São Paulo?
ALEX - Não, namorando, não. Nunca deixaram. Tinha vezes que eu precisava me apresentar no Palmeiras e não ia. Aí explicava ao Felipão que estava com saudades da minha família, da minha namorada. Como eu era novo, ele entendia. Tanto que nunca ninguém soube disso. O Felipão deixava passar batido. A turbulência na família da Daiane pintou quando decidimos que íamos casar. Ela tinha 16 e eu 22 anos. Para convencer alguns da família, a maioria árabe, não foi fácil.
PLAYBOY - Aí vocês se casaram, fizeram uma festa grande?
ALEX - Festa grande, bonita. Para umas 900 pessoas. Uma festança. No réveillon anterior tínhamos conhecido o Agnaldo Rayol no hotel da família. Por coincidência, ele era palmeirense. Entrou no meio do salão, falou duas ou três palavras e cantou Ave, Maria em português e em italiano, já que estávamos indo para o Parma.
PLAYBOY - Você viveu um caso de amor que acabou em casamento. Com isso você não pulou aquela fase de farra, que muitos garotos vivem?
ALEX - Que nada. Fiz muita coisa até 1997, quando comecei o namoro. Em Curitiba, fiz muita merda.
PLAYBOY - Você já tinha algum dinheiro nessa época?
ALEX - Não. Só fui ganhar dinheiro quando vim para o Palmeiras. Mas naquela época em Curitiba eu também não precisava. Quando era amador, a gente colava nos caras que tinham grana. Saía com os jogadores mais velhos, que tinham uma condição melhor.
PLAYBOY - Você disse que fez "muita merda". Isso significa levar mulher para a concentração?
ALEX - Isso não. Quando estou em um hotel para me concentrar, é isso que faço. Mas durante períodos de treinamento e pré-temporada...
PLAYBOY - Você acha que a concentração é realmente necessária?
ALEX - Depende da concentração. Tem treinador que prefere concentrar uma semana antes do jogo. Não serve pra nada. Vai dormir, vai comer, vai engordar. Não vai fazer porra nenhuma. Agora, se você joga no domingo, a concentração do sábado é interessante. Você troca idéias, analisa vídeos do adversário etc. Em 2003, no Cruzeiro, o Vanderlei chegava em mim, que era o capitão do time, e perguntava: "E aí, como é que estão os caras? Como é que está fulano, como está sicrano?" Na concentração, eu durmo no mesmo quarto que o Márcio, que tem 19 anos. Na final da Copa do Brasil, ele não dormiu. Eu acordei para ir ao banheiro à noite e vi o cara de olhão estalado. Lá pelas 8 da manhã a torcida do Cruzeiro começou a cantar o hino na porta do hotel e o menino não dormiu mais. A ansiedade para jogar era muito grande. Então, para essas coisas, a concentração serve.
PLAYBOY - Transar na véspera da partida prejudica muito?
ALEX - Nem um pouco, nem um pouco. Não muda nada.
PLAYBOY - E horas antes?
ALEX - Pra mim, não muda nada. É diferente quando o cara sai no sábado com a mulher, bebe, não dorme, fode a noite inteira. Aí é claro que atrapalha. Mas não é porque transou, é porque ele bebeu pra cacete, não dormiu.
PLAYBOY - Você viu muita confusão em concentração de hotel?
ALEX - Com jogadores? Vi muitas.
PLAYBOY - Como funciona a mecânica da coisa?
ALEX - Tem vários esquemas. Você pode mandar a mulher antes para se hospedar no mesmo hotel ou conhecer uma por lá. Dentro do hotel não tem como você segurar o jogador.
PLAYBOY - E o técnico, não fala nada? Ou não sabe?
ALEX - Sabe. Futebol não tem segredo. O treinador sabe. Faz vistas grossas porque no domingo é gol do cara. O cara vai lá e joga pra cacete. Enquanto tiver dando resultado, acho que não muda nada. No futebol, tudo é resultado. Se o rendimento do jogador começa a cair, se o time perde, questionam tudo. Horário de treino, peso do cara, se o sono está regular, se pintou mulher. Mas, enquanto você está ganhando, sem problemas. E treinador é muito supersticioso. Se você pulou o muro no sábado e marcou três gols, é melhor fazer isso no próximo sábado também [risos].
PLAYBOY - Qual foi o time mais "putanheiro" que você pegou?
ALEX - O Flamengo de 2001, disparado. Era um time despreocupado com resultado, com rendimento. Na época teve um escândalo num churrasco que o pessoal fez. Deu capa de jornal e tudo. Tinham várias moças no churrasco. Graças a Deus eu não participei, só fiquei sabendo no dia seguinte. A minha mulher estava do meu lado quando eu fiquei sabendo. Essa Deus me deu uma luz. Quem sabe podia ter participado e a casa tinha caído [risos].
PLAYBOY - Mas você sabia que ia ter churrasco?
ALEX - Sabia. Só que existem vários tipos de churrasco.
PLAYBOY - Inclusive alguns onde se come carne...
ALEX - É, não o canibalismo [risos]. Ninguém faz um convite formalizado, dizendo que estará cheio de putas. Quando você chega lá, tem mulher, cerveja, samba. Isso não sai de graça. Teve uma história muito engraçada no Cruzeiro em 2001. Fizeram um churrasco e o time começou a perder. Um dia estamos no refeitório, chega um jogador gritando: "Na hora do churrasco, todo mundo quer. Na hora de pagar, ninguém aparece. Tive que pagar sozinho. Depois falam que é culpa do Ivo [Wortman, o técnico da época]. Mas isso é praga de puta" [risos]. Na hora estava todo mundo almoçando, jogador, diretoria, comissão técnica. Todo mundo olhou para o jogador. Ele entregou o churrasco, que só os jogadores sabiam.
PLAYBOY - Esse Cruzeiro de 2003 parece ser menos festeiro que o de 2001.
ALEX - Não sei. A maioria do time é solteira, tem no máximo 25 anos e ganha um bom salário. O que os caras fazem fora do campo pode ser até muito mais do que foi feito em 2001.
PLAYBOY - Bom, mas, por mais farra que tenham feito, jogaram demais...
ALEX - É sempre uma questão de resultado. Quando nós caímos de rendimento no final do primeiro turno, o Maurinho era muito questionado. E, como Belo Horizonte é pequenininha, foram buscar a vida do Maurinho, o que estava fazendo fora de campo, se estava bebendo, indo a festa.
PLAYBOY - Quem foi atrás disso?
ALEX - Ah, o torcedor busca informação, o diretor vai atrás. Eu me lembro de um episódio em Belo Horizonte. Fui jantar com a Daiane, com o Paulo Miranda [ex-jogador do Cruzeiro] e com a Roberta [mulher dele]. Quando deu 11 e meia, o Paulo falou: "Vamos dormir, porque a gente tem treino amanhã". O time não estava bem. No dia seguinte, quando chegamos ao clube, o Vanderlei passou por nós e nem boa tarde deu. O homem está brigado, deve ter discutido com a diretoria. Fomos pro campo, estamos na roda de bobo. O Cris, que era o capitão do time, chegou e disse que "alguém tinha feito merda". Eu estava tranqüilo, não tinha feito nada. Aí começou o aquecimento e o Cris chegou de novo: "Olha, você fez merda. Chegou aí pros homens que você e o Paulo Miranda ficaram bebendo até 3 e meia da manhã num bar". Quando acabou o treino, o Vanderlei nem olhou na nossa cara. Disse que queria conversar com a gente na salinha. Aí ele desandou a falar, disse que a gente estava bebendo, que ele tinha pedido a nossa contratação, que a gente era jogador de confiança dele. Quando ele terminou de falar, eu perguntei: "Tudo bem, onde o senhor quer chegar com isso? Nós fomos jantar, eu tomei uma caipira, o Paulo bebeu um chope. Deu 11 e meia e nós fomos embora. Agora, se você não pode mais pegar sua esposa e sair para jantar, vamos parar de jogar futebol. Não podemos mais viver".
PLAYBOY - Durante o Campeonato Brasileiro o Cruzeiro enfrentou uma fase de maus resultados. O que aconteceu lá por outubro, mais ou menos?
ALEX - Desde o início do campeonato, o Vanderlei disse que a gente seria campeão brasileiro. Antes da partida contra o Goiás, ele disse que não acreditava mais. Porque não estávamos mais levando a sério a competição. Ele começou a dizer que determinado jogador estava numa festa, sabia até o nome das meninas da festa. Que o outro estava em tal lugar, tal dia, tal hora. E, com ele, outros três jogadores. Falou isso para uns seis jogadores. Sabia tudo, a ficha completa. E a gente olhava para a cara dos acusados e eles não esboçavam reação nenhuma. No final de tudo, o Vanderlei perguntou: "Tô mentindo?" O pessoal reconheceu que estava mesmo nas baladas.
PLAYBOY - O Luxemburgo estava furioso?
ALEX - Puto da vida. Dizendo com todas as letras que a gente perderia o campeonato. Fomos para a partida contra o Goiás e jogamos muito bem, mas perdemos de 1 a 0. Ele reuniu o elenco e falou: "Olha, apesar da derrota, retomamos o caminho". E aí cada um foi rever o que estava fazendo de errado. Se continuou fazendo ou não, não me pergunte, eu não sei. Só sei que os resultados voltaram, o time continuou jogando bem e foi campeão.
PLAYBOY - O Cruzeiro, em relação ao Palmeiras campeão da Libertadores onde você jogou, é um time melhor?
ALEX - A diferença deste Cruzeiro para o Palmeiras de 1999 é que o Cruzeiro tem um grupo de verdade. O Palmeiras não tinha. Eram três times dentro do elenco. Uma vez nós tivemos uma reunião em Assunção, no Paraguai. Um jogador disse: "Se tem alguém que não gosta de mim, é bom falar aqui pra gente resolver os nossos problemas". Aí vários falaram que não gostavam do cara e houve um racha.
PLAYBOY - Quem foi?
ALEX - Não vou falar. E tinha um grupo que cantava dos dois lados. Brincava lá, brincava aqui. Só que nesse dia nós fizemos um acordo. Não vamos jantar juntos, não vamos nos falar, não vamos nos cumprimentar, mas dentro de campo nós vamos à morte. Vamos pro pau, vamos lutar pelo Palmeiras. O Palmeiras não merece que a gente leve essa vaidade para dentro de campo.
PLAYBOY - Eram brigas bobas?
ALEX - Não, brigas seríssimas. Nós não ganhamos o Mundial Interclubes por isso. Quando acabou o jogo contra o Manchester, o Arce, que dividia o quarto comigo, me perguntou se eu sabia por que não havíamos ganho o jogo. Respondi que tinha sido pelas chances perdidas e tal. Ele falou que perdemos por castigo de Deus. Nós mentimos para todo mundo. Mas para o homem de cima não dava para mentir. Esse negócio de grupo, de amizade, de entendimento, de tolerância funciona. Um time é até mais do que um casamento. Você fica mais com o seu companheiro de quarto do que com sua mulher, mãe, o seu filho...
PLAYBOY - E uma briga dessa nasce por dinheiro ou por vaidade?
ALEX - Vaidade é o principal. Acontece porque você ganhou mais destaque na mídia do que o outro.
PLAYBOY - O que deu errado nas Olimpíadas?
ALEX - Tudo. Primeiro, a preparação não foi a correta. Mas, de novo, o principal foi a vaidade. Todo mundo achava que devia aparecer mais do que o outro. Porque era Olimpíada, era o momento maior. Houve um choque dentro do grupo já na definição da numeração das camisas. Vinha lá, 1, Hélton, 2, Baiano, e assim por diante. Os que pegaram números acima de 11, na teoria os reservas, começaram a chiar: "Puta, vai ser foda ficar no banco. Jogo mais do que fulano". Dentro de campo, isso se refletiu pra cacete.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 11:48 AM
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Sexta-feira, Janeiro 09, 2004
quem ganhou o primeiro páreo
foi o cavalo
quem ganhou o segundo páreo
foi o cavalo
ganhou o décimo terceiro páreo
foi o cavalo
foi o cavalo e o idiota sou eu
Aguillar & banda Performática
Tava sem porra nenhuma pra fazer na hora do almoço. Fui comer ali no Mestre do Largo e tinha um cliente pra ver ali nas Mercês logo depois. Lembrei que tinha uma expo do Aguillar na Andrade Muricy e fui lá. Massa. Gosto pra caramba do Aguillar. E tem um vídeo rolando num televisor ali com a banda Performática, com a qual o cara detona. É só pedir a fita pro Felipe, um punk que fica na recepção, ali. Essa banda é uma coisa que eu gosto muito. Pena nunca tê-los visto ao vivo. Genial. Sem falar que é uma quebradeira. A propósito, a obra ali em cima é minha, mas bem que poderia ser do Aguillar. Recomendo. Pintem lá.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 4:06 PM
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Quinta-feira, Janeiro 08, 2004
Cê não consegue fazer nada sem querer que isso seja poesia depois, não? Um hai cai, sempre, uma rima esdrúxula, vez por outra. Trocadilhos bestas e sacadas. Tá bom, reconheço. Suas sacadas são geniais. Mas.... urgh! Uma letra de música? Sempre. Pára com isso!
Tá bom. Vou tentar. Tentar é conter a tentação (ops! Tá bom... prometo). Olha: alguns filés de pescada, coisa de meio quilo. É pra um, ela não come. Corta em fatias. Meta uma imensa colher de margarina numa panela média. Taque suco de limão e ervas, as que tiver aí. Tempere com um ariscozinho ou sal mesmo. Deixe fritar por cinco minutos. Tire da panela e coloque num prato separado. Pegue os pedaços de peixe e molhe na manteiga. Taque na panela. Ele vai dissolver, ao contrário dos planos iniciais. Tá bom, corte pimentão e duas fatias de manga. Jogue um vinho branco no peixe e deixe queimar enquanto isso. Pegue a manteiga que tava lá e jogue tudo em cima do peixe, daí. Mais limão a gosto. Beleza, taque a manga e o pimentão, mais um pouquinho só de vinho e tampe. Deixe lá, mexa vez em quando, jogue um verde, cebolinha, picada. Coisa de dez minutos. Sirva com arroz e batata cozida cortada em pedaços. Dá pra dois esfomeados, mas ela não come. Tome o resto do vinho e chape. Divino! Isso é uma obra de arte!
Hi, lá vem ele de novo...
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 5:31 PM
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Terça-feira, Janeiro 06, 2004
Não vejo a hora
Deu no
Uol. Simon Louvish, escocês, lança biografia do Gordo e o Magro, intitulada
Stan & Olie. As raízes da comédia. A dupla vida de Laurel e Hardy.
Fiquei contente com esta notícia. Estes caras estão entre meus artistas favoritos de todos os tempos e todas as artes. Eu simplesmente assisti tudo que já foi feito com eles, no cinema, em vídeo e na tevê, que na minha época de criança passava tudo dos caras. Eles são geniais. Eu simplesmente amo tudo. Da fase muda ou com palavras. Tudo. Me influenciou muito. Grandes atores, grandes comediantes, química perfeita. Individualmente, já fizeram trabalhos brilhantes também. Como Oliver Hardy no papel do médico fanfarrão em Zenóbia.
Laurel é inglês, e trouxe com ele aquilo que no Brasil chamamos de a escola do clown, em que os gestos são mais importantes que as palavras. Ele veio com Chaplin, pobre e fudido, da Inglaterra. Hardy é um ator que começou cantando. Ligado ao blues, pois veio do sul dos EUA. Nunca vou esquecer a cena em que ele canta Lazzy Moon, pintado de preto, num filme que se passa nas plantações de algodão e eles são fugitivos de uma penitenciária. Não vou buscar os nomes dos filmes e blá blá blá. Todo mundo lembra. Todo mundo assistiu. São populares demais.
Foram enganados pelo produtor canadense Hal Oats (não lembro como escreve). Fizeram muitos filmes, trabalharam pra caralho. Ganharam dinheiro, mas nunca enriqueceram. Stan tomava todas e era um mulherengo. Oliver era mais família mas era doidão também. Eram amigos. Muito amigos. Foram mambembes até o fim. Artistas de verdade. Uma dupla de verdade. Guando Oliver morreu, em 1957, Stan se recolheu em casa e dizem ter morrido de desgosto, alguns anos depois.
Espero que a tradução desta biografia saia logo no Brasil e seja legal, pois tudo que li sobre os caras foi pescado em enciclopédias de cinema, ralando num inglês precário, ou na internet e em algumas raras publicações, super resumidas, em português. Não vejo a hora que saia por aqui.
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 11:30 AM
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Sábado, Janeiro 03, 2004
Diário de bordo
Foi pancada. Ia pra Floripa. Tudo certo. O Juliano descolou uma casa no Campeche. Ótimo. Daí um probleminha com a Ju não querer ir. Todo ano a mesma coisa. Só que dessa vez não teve jogo. Ah, não vai? Tá bom. Liguei pro Ricardo em Porto Alegre. Venha. Catei a mochila e fui. Sozinho.
Fui pela serra, BR 116. Primeira vez por este caminho. Era noite, mas o ônibus atingia a serra gaúcha logo depois de Lages e Vacaria, já pela manhã. Bela paisagem. Saí às 19 horas de cwb e cheguei em poa às 7 da manhã. Sem atrasos. Ótimo. Ricardo me pegou na rodoviária e fui dormir.
Lancheria do Parque, lá pelas seis da tarde, como sempre. Cidade sem muita gente. Porra, queria que o sem muita gente de cwb fosse como o de poa. Loucura. Uma galera. Meia dúzia de polares geladas depois, aparece o Nei Lisboa. Gripado pra caralho. Não queria incomodar o cara. Ídolo é foda. Ele sentado ali sozinho tomando uma polar também, na dele. Engraçado que o Ricardo que é de lá, fica mais apreensivo com a presença do cara do que eu que sou de fora. Acho que ele é mais fã do que eu eu, sei lá. O Ricardo é meio louco, mesmo. Mas, na boa, a presença do cara garantiu uma leva de letras que a gente sempre faz quando eu vou a poa. O Ricardo ainda cantou uma canção que ele fez com uma letra minha da última vez que eu tinha ido lá e que eu nem lembrava. Caralho. Puta som. Tá na mão, vou gravar. De repente uma guria que tava sentada na mesa ao lado intima em fogo, algo assim, não lembro, e pergunta se eu não sou de Curitiba. Sim, sou. Ah, é que eu morei lá, frequentava o Birinites... há há há. Boa. E a gata foi encher o saco do Nei. Encheu tanto o saco que ele foi embora. Sei lá, acho que não foi por isso que ele foi embora, o cara tava gripado, não parava de espirrar. Grande Nei. Ficamos lá.
Na oitava polar, saímos, já meio daquele jeito e o Ricardo resolve ir no morro. Sei, no morro... bah, é que tu tá aqui, Flavião, só por isso vou no morro. Sei... Pancadaria. Na Cidade Baixa, do outro lado do parque, encontrei o cara do Bidê ou Balde, que não lembro o nome, aquele que canta. Conversamos um pouco sobre o show deles em cwb, que eu fui e gostei. Uma galera. Muita gente e blá blá blá. Impressionante como os caras curtem Curitiba. Maior respeito mesmo. Só um cuzão que apareceu com um baixo nas costas, que era amigo da guria que tava antes na lancheria, veio com um papo do tipo: existe vida inteligente em Curitiba? Daí eu respondi: exite, sim! Qual é a tua? Ignorante! Quer que eu te pergunte se existe vida inteligente no rock gaúcho também? O cara ficou sem jeito. Acreditem, mas ele achava que o Leminski era de SP. Vai tomar no cu, baixista de merda! Quando ele viu que eu conhecia o rock gaúcho melhor que ele, ele ficou na dele. Na boa, o povo seguiu em frente. Nessa o Ricardo já tinha arrumado duas nega gaudéria. Uns aviões! Eu não vou falar sobre a beleza das mulheres gaudérias que se não o pau de macarrão come solto aqui em casa. Vamos lá, Flavião, é só porque tu tá aqui. Tá bom, Ricardo, sei, sei... ao morro de novo, com as duas mais uma que o Ricardo já conhecia. Voltamos pra cidade baixa, dessa vez para o Van Gogh, eu já sem orelha. Este lugar é uma espécie de Gato Preto local. Tava com sudades daquele bar. Muito legal. A noite nunca acaba em poa. Sei que no fim o Ricardo estressou com com as gurias, e expulsou elas do carro quando a gente tava indo, hum, acho que no morro de novo, vai saber, daí já não lembro mais. Em casa, ficamos no quintal do condomínio dele, no Nonoai, vendo o amanhecer do Guaíba, mas o sol nasce do outro lado, o negócio lá é pôr-do-sol, mas é bonito mesmo assim, vermelho.
Domingo, mais umas bandinhas pelo Bom Fim e menos polares. Segunda, saí cedo, fui caminhar. O pessoal do Ricardo viajou e fiquei sozinho em casa. Ele foi trabalhar. Fui a um cyber café deixar recado pro Daniel Matos. Voltas pelo belo centro de poa. Fui até o Beira Rio a pé. Conheci o lugar onde o Figueroa fez o gol iluminado em 1975. Bacana, fiquei amigo dos caras colorados no bar do lado do estádio. Bah, tu tem que voltar sempre, tchê. Voltei a pé até a lancheria, onde almocei e fiquei bebendo. Daí fui pra cidade baixa e entrei num bar bem podre que eu tinha visto na internet, um lugar meio da turma da Livros do Mal, sei lá. Bar do Apholo, na Lima e Silva, quase esquina com a República. Como dizem os gaúchos, chinelagem total. Acreditem, mas anoiteceu e eu fui pra noite sozinho. Muita história rolou, mas eu nem lembro direito. Sei que acordei no Van Gogh (eu dormi no Van Gogh depois de uma sopa de queijo! Caralho! Que mico!), e fui acordado, adivinhem: pelas duas meninas que o Ricardo tinha expulsado no sábado! Muito, mas muito engraçado. Acho que elas eram putas. Não sei. Enfim, sinuquinha no lugar mais chinelo do sul do planeta, amanheceu e já era terça. Acabei não encontrando o Daniel, já que... digamos... já era tarde. Peguei o Vila Nova, que é um ônibus que leva até o Nonoai, onde estava hospedado. Dormi o dia todo. Quarta, Torres.
Bela praia essa Torres. Mas, a exemplo do que aconteceu em todo o sul, ventava que era o diabo. Passei o ano novo completmente agasalhado, num camping cheio de gaudérios, e aquele som que todo mundo sabe, uns vanerões ensandecidos. Bah. Dormi e voltei pra cwb. Aconteceram mais coisas, antes em poa. Mas eu juro que eu não lembro.
Acho que eu vou lá no Carlão fazer um som. Vamos ver. Cadê o fone do vagabundo?
postado por: FLÁVIO JACOBSEN 1:59 AM
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