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Quebradêra F.C.

insônia, depressão, música, literatura, crônicas de alcoolismo e declarações de amor



Sexta-feira, Outubro 31, 2003



Este é o bairro das Mercês, onde cresci. Grande coisa.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 4:31 PM Comentários:



Quinta-feira, Outubro 30, 2003



- Isa! Chega um pouco pra frente. Tem que sair o hotel. Preciso de fundo.

- Aqui tá bom? Dá pra ver o furgão do siate, ali?

- Ótimo. Gravando. Diz!

Isabela dá o texto, ao vivo, para o jornal da noite, sobre a mulher que se atirou do décimo quarto andar do hotel. Aparentemente sem nenhum motivo. Termina.

- ... Isabela Silva para o jornal da noite.

- Pronto! Ficou bom, Isa. Pra redação.

- Vou pra casa, direto. Já terminei pauta hoje e vou pra Londrina amanhã cedo.

- Quer carona?

- Nada, tô perto. Brigada. Tchau!

Isa entrega o microfone, guarda a papelada e vai-se embora, a pé, pelo centro, meio que em direção ao alto da XV. Suas mãos tremem. Ela não vê a hora. Precisa tomar alguma coisa. Tem uns trocados até, que o trabalho de repórter dá e sobra. Mora por aqui, sozinha. Vai. Há dias que bebe sem parar. Vai pra redação de manhã, umas 10, resolve o que tem pra fazer, a pauta, recebe a missão e vai pra rua. Grava, às vezes transmite ao vivo, vezes volta para a redação, vezes não. Seu trabalho é muito elogiado. Menina do norte do estado, veio pra capital e dá conta do recado. Suas mãos tremem. Por que será que a mulher se atirou? Rica. E o playboy, não quis dar declaração. Todos no hotel o conheciam. Seu João, diziam os funcionários. O gerente também não deu declaração. Isa entra no bar. Oi pro garçom que já conhece. Jornal. Difícil mulher sozinha em bar. Suas mãos tremem. Uísque. Jornal, por favor. Pode que isso é coisa de homem, não? O populacho desconhece mulher desses modos. Ainda mais tão bonita. 22 anos e uma banda de rock. Ex-banda de rock. Deixou tudo em Londrina. Dois meses, um frio da porra e uma solidão dos infernos. Curitiba é a cidade dos mortos. O lugar ideal pra viver o que Isa quer viver. Mário, mais um uísque. Enfim, a calma na tremedeira. Nem nove horas. Mas que porra que aquela mulher tinha que se atirar. Tem motivo pra viver, não? Vai saber. Tá bom, que ela bebe sozinha e parece que quer morrer aos poucos. Tem gente que gosta de fazer o serviço de uma vez. Bem que o pai perguntou. Salvador? Brasília? Nada. Curitiba, se é pra morrer mesmo... Mário, cerveja!

Olha que o moço no balcão é bem simpático. Conversa com o velho. Olha que dá pra chegar meio de lado. Oi. Cê é daqui? Não. Horrível. Que tal um: posso sentar? Tá ocupado? Ai, que não dá. Bem que ele podia chegar invés de eu ter que fazer o serviço. Nada. Vou.

Bóris saiu antes que Isa chegasse até ele, meio que desesperado, porta afora. É. Fazer o quê? Mário! Mais uma! Vê se é tipo de mulher. Sozinha? Nunca vi. Nessas plagas não é comum não. O velho a seu lado, que conversava com Bóris dorme de vez no balcão. Pra casa? Nada, tá bom aqui.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 4:50 PM Comentários:



Quarta-feira, Outubro 29, 2003


Tem que ser agora

Uma cidade de homens na tela das princezinhas e popozudas kitsch

Todo mundo sabe que eu assisto tevê pra caralho. Todo mundo sabe que eu detesto tudo que tem na tevê. É mentira que eu assisto tudo que tem na tevê. Sou um zapper. Mudo de canal direto que chego a irritar a Juliana. Eu assisto tevê pra caralho porque eu sou fanático por jornalismo e não perco um futebolzinho que seja. Qualquer Combate Barreirinha X Operário Pilarzinho, pra mim é clássico (não menosprezando este grande clássico da nossa periferia). E assisto filmes. Muitos, de toda sorte. Sou um fanático por cinema e acho a tevê um veículo duca pra assistir aquilo que perdemos na tela grande. Seja em vídeo, DVD, tevê a cabo ou aberta. Sempre vejo filmes. Dublados ou legendados, tanto faz. Eu gosto de filmes. Enfim, vejo tevê pra caralho, porque gosto de jornalismo, futebol e filmes. Só.

Eu não lembro mais a última novela que vi. Não é desculpinha de macho mal resolvido que diz que viu quando tava passando, e acabou pegando uns pedaços. É sério. Novela, desde bem antes do controle remoto, eu mudo, eu paro de assistir e vou ler, ouvir um som, ou escrever ou tocar minha viola. Ou eu desligo. Mini séries cheguei a ver algumas, mas minha vida de botequeiro também não me permite estar ali acompanhando tudo. Enfim, acho que a última novela que vi, pra não dizer que não lembro de todo, acho que foi Água Viva, ou Sol de Verão, lá no começo dos anos 1980. Não adianta vir com essa. É sério. Não lembro desde então. Sou do tempo em que os atores novos e galanzinhos eram o Cuoco e o Tony Ramos. O adolescente era o Fábio Júnior, que era canastrão mas até dava conta do recado. Pode rir. É verdade.

Antes que algum imbecil venha me dizer qualquer coisa, quero deixar bem claro que eu acho que existem duas formas de pensar na influência da novela sobre o povo brasileiro. São paradoxais.

Primeira: a novela faz mal à saúde, seus roteiros são via de regra uma merda, seus atores na grande maioria são igualmente uma merda e elas ainda seduzem o povo de um jeito que o afasta da leitura e dos afazeres mais lúdicos, assim como do teatro e do cinema. Ponto. Concordo.

Segunda: a novela é um privilégio que poucos povos do mundo têm igual ao brasileiro, de receber entre tantos atores ruins, uma Fernanda Montenegro ou um Gianfrancesco Guarnieri, e tantos outros atores magníficos e universais, assim gratuita e fortuitamente, em casa. Todas as noites. Concordo também. É um barato isso.

Só pra terminar esta parte: tem gente que acha que o povo brasileiro gosta de novela e futebol por causa da tevê. Mentira. Isso vem do rádio e, no caso das novelas, vem desde os folhetins impressos. O rádio é nosso elo perdido. Isso é outro papo. O povo brasileiro é um tesão de gente. Pergunta pra qualquer gringo.

Todo mundo sabe que sou o primeiro a esculachar um troço quando acho ruim, ou acho que está errado, ou mal utilizado, ou muito equivocado. Detesto. As novelas hoje, olha vou dizer, são uma merda. Uma merda mesmo. A tevê é uma merda. Parece que não se recicla, que não quer se reciclar. É uma merda. Se puder, desligue. Eu só vejo filme, futebol e jornal. Filme você pode ver no cinema. Pelas notícias de hoje, não sei se vale a pena assistir o jornal. Leia um de banca que você ganha mais. E o futebol, bem, deixa pra lá. Eu assisto, mas não recomendo.

Agora, todo mundo sabe que eu sou o primeiro a elogiar um troço quando é do caralho, quando é bom, traz novas linguagens ou reutiliza mesmo que diluindo alguma coisa boa já feita. Eu apóio, assino embaixo, recomendo. Faço festa e sou tão retardado que chego a aplaudir de pé (em casa, no caso da tevê). Desculpa, é que sou meio retardado mesmo. Um romântico. E digo: esse Fernando Meirelles é do caralho.

Cidade de Deus, não bastasse ser o melhor filme brasileiro já feito, que não é isso que está em questão, é apenas minha opinião, ainda gerou frutos como este Cidade dos Homens. Enfim, depois de tanta merda parece que alguém entendeu de verdade o que o Glauber quis dizer, ou propor.

Do caralho. Bom. Excelente. Dá gosto de ver. É câmera, dinâmica, texto, interpretação, roteiro bem resolvido e acachapante, trilha sonora com Los Hermanos, êta! Tudo. E é televisão, porra! Tem outras coisas boas rolando também, como a Grande Família, por exemplo, que resgata um pouco do TBC antigo. Legal. Mas estes caras mataram.

Eu sempre gostei muito de pessoas que têm aquilo que chamo de uma seriedade assustadora. Caso do Meirelles, com aquela cara de ranzinza, mas de uma retórica extremamente objetiva, clara, sem afetação. Esse cara é fudido. É a produtora dele que faz o Cidade dos Homens. Escrevi toda essa baboseira só pra decretar o troféu Quebradêra da semana pra ele e sua equipe e seu atores. Todo mundo. Troféu Quebradêra para Cidade dos Homens! Do caralho. Quando é bom, eu digo. Acho que a legenda da foto resume o que eu acho que tem que ser.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 4:31 PM Comentários:



Terça-feira, Outubro 28, 2003

Alguém aí duvida que esta mulher é a atriz que mais influenciou minha geração?
Pois é. Grande atriz, grande mulher. Ela tem um site. Ela é tudo.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 2:26 PM Comentários:



Segunda-feira, Outubro 27, 2003

Este poema chama-se 27 de outubro.

Ai que saio todas as manhãs, quando eu saio às manhãs
E saio todas as tardes, e sol ou chuva que se digam as plantas
De margaridas ou hortênsias que se abrem neste carnaval
De flores que se saem assim nesta época sui generis do ano

Ai que vejo todas as pessoas passando em minha frente todos os dias
E suporto todas as tempestades dos seres comuns, que de igual
Não sou nada, mas creio que em toda vida que assumi de frente
Ainda acho em ti todas as flores que perdi, em toda minha vida,

Porque floresces como um sol que esqueci numa estrada
Que caminhei em toda minha truculenta empreitada esquisita
E mesmo assim ainda quero desde que encontrei-te, lá
No meio de uma viela, curva, desta mesma estrada, que apronto

Par deixar bonita, quem sabe, um dia tão sonhado em dois, que se ainda
Carece de graça, eu juro que hei de fazer jus a nosso encontro
Que se deu-me a graça, fazer-se o meu maior sonho

Ó querida, que se não houve até então em minha tenebrosa vida
Algo que me fizesse, às manhãs, caminhar tanto quanto eu durmo
Desde que me conheço por gente, mas que a este homem fizeste

Tenho que posso caminhar por tudo
E qualquer coisa que eu sonho, eu juro

Agora, sem rima, sem nada,
Te digo, minha amada
Que tudo que posso, eu sonho,
E te amo, e se nosso amor tem
Algo que caiba neste calendário
Te juro, feliz aniversário

E de toda minha vida, de tudo que se pode dizer que se ama
Deste outubro, minha Juliana
Faço eu deus, e você minha gana, e somente,
Desde mil, pode crer, novecentos e eternamente

Flávio (2003)

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 1:36 AM Comentários:



Sexta-feira, Outubro 24, 2003

TRAGÉDIA ANUNCIADA (OU COMO A MÚSICA DE CURITIBA ESTÁ VIRANDO UM CASO DE POLICIA)
Ivan Santos


Voltando à questão da repressão policial que se abateu sobre os eventos musicais em Curitiba, gostaria de levantar aqui uma questão que já abordei rapidamente no Bule, comentando o episódio de quarta-feira envolvendo o Gente Boa da Melhor Qualidade.
Além do problema da falta de uma política digna desse nome para a música ao vivo e a produção cultural da cidade, o que mais me preocupa nesses acontecimentos é que estamos caminhando no fio da navalha, sob o risco de que a qualquer momento aconteça uma tragédia.

Sim, porque a exemplo do que aconteceu lá no Vox na quarta, e na Punktoberfest, recentemente, também no Rock de Inverno 4 a polícia já entrou no local de armas em punho.

Agora eu pergunto, e se por acidente alguém dá um tiro e mata ou fere alguém? Como é que fica? Todos nós, de músicos a produtores, passando pelos donos das casas, podemos ser responsabilizados podemos ser envolvidos numa situação dessas. Afinal, estamos falando de ambientes noturnos, em que as pessoas bebem, e muitas vezes não estão preparadas para encarar uma batida policial, e é claro, muitas vezes esses policiais também não estão preparados para abordar um ambiente desses.

Vamos supor que a polícia tivesse invadido o Rock de Inverno não antes de ter começado, mas já durante um dos shows, o do Bad Folks, por exemplo, ou o do OAEOZ, Sofia, Sonic Jr, Poléxia. E nessa invasão, já com as pessoas dançando, pulando, se divertindo, alguém, sem ainda ter notado a presença da polícia, faz um movimento brusco, involuntário, que pode ser facilmente interpretado como uma reação, e leva um tiro?

Acho que está mais do que na hora das bandas, artistas, produtores, donos de casas, enfim, todo mundo envolvido nessa história, deixar de apenas ficar se queixando entre si e partir para uma ação concreta. Ou será que vamos esperar antes que aconteça alguma tragédia pra fazer alguma coisa.

Não sei exatamente o que podemos fazer, mas sei que já estou fazendo a minha parte, primeiro, divulgando ao máximo, não só aqui, mas lá fora, esses episódios. Acho que poderíamos também, por exemplo, elaborar um texto, subscrito por todas as bandas, músicos, etc, denunciando oficialmente essa situação à imprensa e ao público. Pode ser que não dê em nada, mas pelo menos estaremos fazendo alguma coisa e marcando posição.

Esse mesmo texto poderia ser enviado à imprensa nacional.

É aquela história, quem cala consente. Eu não concordo com o que está acontecendo e não pretendo me calar.

Ivan Santos
http://www.deinverno.blogger.com.br/

xxxx

TAÍ MOÇADA. UMA BOA CHANCE DA GENTE "TOCAR EM VÁRIOS ASSUNTOS". E COM GENTE QUE JOGA NO NOSSO TIME. PEGUEI LÁ NO BLOG DO DARY:

"Sem programa para o começo da noite de sexta? Tudo resolvido. Ligue a tevê no Canal 9 (Paraná Educativa), em Curitiba, e assista à entrevista com o guitarrista e vocalista Fábio Elias. O líder da Relespública é o meu convidado no "Com a Palavra", que vai ao ar das 19:00 às 19:30, ao vivo, com participação do público por telefone e e-mail. O Fábio esteve hoje à tarde na emissora e prometeu trazer pelo menos um CD para sortear entre os telespectadores que participarem. Se você ainda não ouviu, saiba que o disco novo da Reles ("As histórias são iguais") é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito bom. Garotos e garotas que forem espertos, fiquem ligados. Até amanhã."

ENTÃO. VAMOS? LIGUEM. O FÁBIO É A GENTE LÁ. SEM BAIXARIAS A LA NASI, CLARO...

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 2:11 AM Comentários:



Quinta-feira, Outubro 23, 2003

Sem comentários:

POLÍCIA PÁRA SHOW DO GENTE BOA NO VOX ou VAM'PARÁ CO'ESSA ZONA AHE!!! ou O DIA QUE DOUGLINHAS ENCAROU A GUARDA

Guto Gevaerd e Theo Marques

Quinta, 23 de Outubro de 2003




A Polícia Civil do Paraná ontem invadiu o VOX Café e parou uma apresentação do Gente Boa da Melhor Qualidade.

O show estava transcorrendo normalmente, com o bar cheio e todo mundo se divertido. Porém, na última música, os meganhas entraram parando com o som e mandando ligar a luz. No começo a gente achou até divertido. Afinal o Leo estava voltando para a Espanha e foi um show de confraternização. Era até bacana que acabasse, triunfalmente, com a enrada da polícia. Só que aos poucos as coisas foram ficando meio tensas. Os policias começaram a pressionar a Márcia, proprietária do Vox, supostamente procurando menores no recinto.

Mais o pior veio depois. Em uma cena típica dos tempos da ditadura, Douglas, integrante do Gente Boa, ficou detido durante mais de 30 minutos atrás do balcão sem qualquer explicação. E ainda teve que ver o policial puxando a arma e ameaçando atirar nele. E todo mundo que estava no bar viu que o Douglas não fez nada e não acreditavam no que estava acontecendo. Logo depois, um cliente do bar que tirava fotos da ação policial levou uma chave de braço e foi conduzido para trás do balcão, que virou uma espécie de "cadeia de festa junina". Depois de muita confusão e muitos telefonemas, os policiais deixaram o bar como se nada tivesse acontecido, sob a vaia do público presente.

O absurdo é termos que ficar felizes porque ninguém se machucou. É ridículo termos que aguentar esse tipo de tratamento de policiais que deveriam era estar protegendo os cidadãos.

No final, o que vale é a festa. Mas a gente podia muito bem ter passado sem essa. Abaixo algumas fotos da confusão e do show por Theo Marques.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 2:33 PM Comentários:



Quarta-feira, Outubro 22, 2003

Não vá querer que eu me comporte
Como há muito já não venho sendo
E ao tempo que já não me entendo
Ainda quero pela minha a tua sorte

A doçura de outrora deu um tom amargo
Agora, que o remédio já não cura mais
Cansei de verter pra ti meus tantos ais
Meus males e todo meu constante estrago

Mas ainda e sempre quero-te aqui, sempre
Aqui, no âmago do que já sonhei e hei de
Sonhar, por mais que este aqui nunca se emende

De todo, e ainda te encontro sob mesmo teto
Com o mesmo olhar que ainda e sempre me acende
Viste! Que esta emenda estragou meu soneto

xxxxxxxxx




ressaca... ressaca... ressaca...

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 10:32 AM Comentários:



Terça-feira, Outubro 21, 2003

ser mais que poeta
mais que a própria poesia

o que passa nessa cabeça
em que todo santo dia
uma oração se arremessa?

meço o passo quanto pede a pressa
com você não consigo
ir além da esquina

e quem cria
tem que acreditar
que há vida em outra galáxia
não seja essa minha

essa sua
essa nossa
assim tão pequenina

xxxxx

quinta é dia:



barulheira no camorra! quebradêra!

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 6:08 PM Comentários:



Segunda-feira, Outubro 20, 2003

canto dos outdoors

eles colocam suas mensagens
aos olhos de quem não pode

anuncia-se a quem um dia quiçá pudera
colecionar verão e primavera
no outono da esperança que encerra
cumprir sua sina com quimera

não é fácil ser fraco, feio, burro, sujo e pobre
no abandono desta lama
em que a alma
se perde e se descobre

o suor na testa besuntada em ódio lhe escorre
à violência atentada desatento recorre

: corre, corre, corre, corre

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:14 PM Comentários:



Domingo, Outubro 19, 2003



Este pequeno ser está dividindo nosso pequeno espaço. É uma figura que chama-se Nina Simone. Agora fui rebaixado ao terceiro ser mais importante da casa.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 7:34 PM Comentários:



Sexta-feira, Outubro 17, 2003



Saudades de Porto Alegre. Nunca é tarde pra lembrar o quanto eu amo Nei Lisboa.

Venta
Ali se vê
Onde o arvoredo inventa um ballet
Enquanto invento aqui pra mim
Um silêncio sem fim
Deixando a rima assim
Sem mágoas, sem nada
Só uma janela em cruz
E uma paisagem tão comum
Telhados de Paris
Em casas velhas, mudas
Em blocos que o engano fez aqui
Mas tem no outono uma luz
Que acaricia essa dureza cor de giz
Que mora ao lado e mais parece outro país
Que me estranha mas não sabe se é feliz
E não entende quando eu grito
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, doidos, doidos
Meus olhos doidos, doidos, doidos, doidos, são doidos por ti

O tempo se foi
Há tempos que eu já desisti
Dos planos daquele assalto
E de versos retos, corretos
E o resto de paixão, reguei
Vai servir pra nós
E o doce da loucura é teu, é meu
Pra usar a sós
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, doidos, doidos já vi...
Meus olhos doidos, doidos, doidos, doidos, doidos, são doidos por ti

Nei Lisboa (Telhados de Paris)

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 2:28 PM Comentários:



Quinta-feira, Outubro 16, 2003



Olha só o que fomos fotografar hoje... Vida dura, viu?

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 6:50 PM Comentários:



Saiu o disco do Lique, produtor do meu solo, que vamos liberar hoje, e baixista do Gruvox, minha banda.
Troféu Quebradêra pro Lique (Marcelo França para os frescos).
POde ser encontrado no jabuti, com o Jahir a R$10 ou grátis na choradeira. Ou no mantracultural@hotmail.com - Grande!

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 5:11 PM Comentários:



Quarta-feira, Outubro 15, 2003

Enquanto isso, frase surreal do dia:


Guerra em La Paz.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 12:35 PM Comentários:



ha ha ha. Que tal?

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 11:19 AM Comentários:



Terça-feira, Outubro 14, 2003



Putz, acho que estou ficando velho e gagá. Tava lembrando que dia desses me deparei chorando sozinho ao som da trilha sonora do Sítio do Pica Pau Amarelo. Principalmente na canção do Pedrinho. Acho que é porque este sensacional personagem tem muito a ver comigo, que também viajava de trem para o interior, vindo da grande cidade, pra passar férias, e me deparava com o ambiente rural, de fazenda, de certa aristocracia brejeira, e tinha uma avó professora e cozinheira fantástica, e uma empregada negra inesquecível, e uma prima apaixonante, e livros, e porcos, e sabugos de milho, e estilingues.

Ok, eu confesso. Já fui caçar Saci, com peneira e tudo, quando dava redemoinho. Se eu já peguei um? Isso é segredo. Acho que é uma lembrança que se perdeu nas nuvens brancas que davam naquele céu do norte do Paraná, ou no cheiro da terra roxa molhada de chuva no fim de alguma tarde daquelas.

O que me deixa louco é que os artistas que gravaram esta trilha são uns medalhões dos infernos. Pô, é o Jota Quest que canta a música do Pedrinho! Caralho, por que este bando de gente ligada às grandes gravadoras não faz mais discos assim? Prova de que é possível. Só não fazem porque não querem. São uns canalhas. Ou eu é que ainda sou um sonhador? Pô, dá um tempo...

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 4:55 PM Comentários:



Segunda-feira, Outubro 13, 2003

É muito certo que eu não seja mais aquele
Que porquanto achava que podia dar-se ao mundo
E aos trancos e barrancos foi ao mais profundo
Dos prazeres, que se sabia tudo à flor da pele

E na superfície do conhecimento, deu-se a tudo
Quanto fosse excesso, e depois, de avesso
A este mesmo mundo, entregou-se ao processo
Do acabrunhamento, e calou-se, para sempre mudo

Sim! É muito certo que meus sonhos das alturas
Despencaram ao chão, e de lá abaixo até o inferno
Que ainda ardem nas entranhas tantas amarguras

Sei! Que o mundo que faço ver a quem me quer tão bem
Nada tem daquele que pintei tão belo e terno
Mas eu digo, ó minha: qual você, não vivo sem

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 6:00 PM Comentários:



O despertador toca violentamente. Nosso herói acorda de um sonho azul. Vai até o relógio e desliga o ruído, deixando o anjo do sonho cair no abismo.

Volta pra cama, senta-se à beirada, com as mãos cobrindo o rosto. Recolhe uma camiseta úmida do chão e atira no tanque do outro lado do quartinho-com-banheiro, no muquifo onde mora. Número 16.

Banho, outra camiseta, com o mesmo jeans, um tênis velho. Penteia os cabelos como pode, sem espelho. Prepara um leite com café requentado, toma e vai embora trabalhar.

A pé, percorre as 16 quadras que separam o muquifo da gráfica. Bate o ponto com atraso de minutos e observa o olhar do seu Joaquim, chefe da expedição. Finge que não é nada e toma pra si a primeira pacoteira de jornais.

Norte do Paraná, Campo Mourão cep 87300, que é perto de Maringá. Segunda leva, Paranavaí, 87700, quase na fronteira com Mato Grosso. Sul, Guarapuava. Litoral, Paranaguá. Extremo Oeste, Foz. Ninguém conhece o estado melhor.

- Aí, meu. Lembra o cep de Pato Branco? - pergunta o troglodita que empacota a seu lado.

- 84400.

Subemprego. Percorrido todo o território paranaense e parte do nacional, retira o avental cheio de pó de jornal e vai ao ponto pro almoço. Seu Joaquim interrompe.

- Bóris, preciso falar-lhe. Cê tá muito devagar, acho que vou deixá-lo à disposição da diretoria, pra nós cê não tá servindo.

Não era a primeira chamada. Em outros tempos, pediria encarecidamente para o seu Joaquim não fazer isso, que tinha faculdade, não era daqui. Mas já não ia pra aula e andava de saco cheio. Ficou quieto enquanto o velho falava. Atrasos, dormência, cheiro de álcool. Mais atrasos. Indiferença com os companheiros de trabalho. Chutar máquinas que não funcionam. Olhar para as meninas de um jeito estranho, que elas andaram falando por aí. Falar palavrão. Não chamar ninguém de senhor. Sair antes do expediente acabar, só porque não tem mais nada pra fazer. Dá não. Com você, Bóris, acho que não tem mais jeito.

- Estamos conversados? - termina o chefe.

Dá as costas para o seu Joaquim e vai pra cantina. A Tati não veio. Sumiu no final de semana, não apareceu e não foi trabalhar, todos os dias. Já não sente mais falta da Tati. Também, todo mundo falou pra ele que ela não era flor que se cheire. Agora ela já deve ter arrumado outro, me corneado. Nosso herói sente a dura verdade. Mas já não liga. Caiu na besteira de dizer pra ela um eu te amo daqueles. E ela macaca velha achou que ele não devia dizer isso, que você mal me conhece. Mas ele é assim mesmo, um bosta. Daí ela sumiu. Não foi mais trabalhar. Ele descobre que ela está de férias. Nada interessa.

Come o arroz grudento com o feijão descascado da Irene, mais um charutinho de carne. Nem quer saber de salada. Depois do almoço, um copo de leite e a volta pro trabalho, adiantando as coisas no horário de folga pra sair mais cedo. Da expedição ele observa o povo da oficina jogando bola contra o pessoal do administrativo. Daí a Tati passa por detrás do gol, com o filho. A vagabunda tinha um filho. De outro. Nosso herói larga tudo que está fazendo e corre até ela.

- Dá um tempo, Bóris! Eu te avisei...

Ele dá as costas a ela e sai, puto. Ele sempre dá as costas. E o povo que assiste ao jogo grita.

- Aí, Bóris. Se fodeu! - e riem.

Volta pro setor e empacota o material que falta. Pára pra fumar um cigarro. A tarde passa mais rápido que de costume, sem o que fazer e lendo um Jean Genet. Pobreza com requinte. No final, o prometido bilhetinho azul da diretoria. Azul como o sonho do anjo que foi pro abismo.

Toma um ônibus pro centro e caminha pelas ruas. Fica com um pessoal bicho-grilo no Largo e bebe cachaça com eles, comprada de vaquinha. Um calor dos infernos acompanha o crepúsculo rosado que dá pra ver pintado no horizonte. Vai pra reitoria e bebe às custas de outros que conhece por lá. Deixa uns trocados que não valem nem pra uma cerveja. Come no restaurante universitário com a carteirinha do curso, e fica no pátio olhando pro vazio. Cumprimenta um e outro que passa. Conversa com um professor de filosofia seu amigo, descola um baseado com o pipoqueiro. Fuma na arquibancada do Couto, assistindo a um medíocre treino do Coxa, enquanto cai a noite, e desce pro centro de novo. No café, encontra a turma do grupo de teatro.

- Bóris! Você por aqui? - eram todos viados.

Pedem a ele o prometido argumento para um vídeo experimental. É. Ele faz essas coisas. Ele tem a sorte de estar com os garranchos no bolso. Cobra o serviço em cervejas e bebe às custas dos viados, até se esquivar deles. Tem coisas que ele não faz. Anda pela XV e encontra uma vernissage cheia de gente chata. Come e bebe tudo que pode. Observa um quadro abstrato que sugere um homem bêbado na mesa de um bar. Comenta com um sujeito por ali que um tema tão profundo merecia um tratamento estético melhor, você não acha? O sujeito, que era o autor das porcarias, pergunta ofendido qual é a dele. Nosso herói, estudante. Ah, é? De quê? Antropologia. Ah, é? O sujeito é desses artistas afetados, com uma roupinha super dândi, a exemplo de todos ali. Bate-boca, êta! Nosso herói é convidado pelos seguranças a se retirar. Precisava de certo dizer que o trabalho do viadinho era uma merda total, mesmo que fosse? E era. Não precisava, mas disse. E gritando. Êta.

- Não encosta não. Tô saindo.

Nosso herói é foda. Tss, tss. Numa calçada perto do teatro, é recolhido pelos malacos com quem bebeu no fim da tarde. Não agüenta ficar muito tempo com eles e procura o caminho de casa. Embriagado e sonolento, cambaleia até o muquifo. Entra. Número 16. Sempre chega mais tarde pra evitar a abordagem da dona Lourdes, velha gorda e estúpida.

Senta-se na cama e escreve sobre um caderninho cheio de poemas. Uma bic quase sem tinta, com a ponta gasta. Abandona a caneta e procura por um lápis na meia-luz do quartinho, e encontra-o com a ponta quebrada. Utiliza uma faca para apontá-lo. Corta o dedo, que sangra, pouco. Tanto faz. Escreve por mais de meia hora.

Cansado, tira a camiseta. Chora sobre ela. Chora convulsivamente. Muito. Soluçando, até encharcar a hering, que os peixinhos podiam nadar em mar salgado. Joga a camiseta molhada para o lado, no chão. Esquecendo que o emprego na gráfica já era, aciona o despertador. Dorme um sonho azul.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 4:20 PM Comentários:



Sábado, Outubro 11, 2003



2 xO!!!!!! nos coxas
..... dois de Ilan.... um de bicicleta! Tem coisa melhor? Depois de um sábado desses, que lindo domingo, não?

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 6:09 PM Comentários:



Sexta-feira, Outubro 10, 2003

Sem posts até domingo, estou com TPA... Tensão Pré Atletiba (o jogo é sábado, 16h, na Baixada)... não converso com coxas brancas durante toda a semana... ai, ai, ai... estou calmo... lá ra liii... ai, ai, ai... tem um cigarro? eher... VAMO GANHÁ ESSA MERDA, PORRA! haaaaaaaaa.... tléééééééé.... tiiiiiiiiiiii..... cooooooo!!!!!!!

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:00 PM Comentários:



Quinta-feira, Outubro 09, 2003

distâncias

isso de todo dia
um poema
ainda vai
me levar ao romance

vale a palavra
quanto pesa a pena
o que vale são os dois
olhos no lance

um qualquer instante
um jeito de olhar
um peso bastante
difícil de carregar

isso de todo dia
uma prosa
ainda vai me levar
a reinventar a roda
toda fragrância é cor,
concomitante rosa

todo flagrante,
um grito parado no ar
de você e eu distantes
:
disto,
não sei falar

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 4:53 PM Comentários:



Quarta-feira, Outubro 08, 2003

Ressacão da festa da Relepública ontem. Belo clip, belo show e mil cervejas de grátis. Yeah!! Todo mundo da cena curitibana presente. Gente de fora também. Showzaço da Reles até a hora que o Nasi foi dar uma canja com os caras. O show virou um show do Nasi, que ainda deu de xingar o Martinez pra tudo que é lado: Pau no cu do Martinez!, Pau no cu do martinez!, ele gritava sem parar. Os caras da Reles ficaram perplexos e envergonhados, mas que foi engraçado foi! Troféu Quebradêra para a Reles, para a festa, e (por quê não?) para o beberrão do Nasi. Ha ha ha... Rock n roll é isso aí!
photo by: surrupiado do after hour

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:45 PM Comentários:



Terça-feira, Outubro 07, 2003

Essa é boa. Há uns 8 anos, mais ou menos, fiz um folder (texto e arte) para o Teatro Fernanda Montenegro, no Shopping Novo Batel. Agora à tarde, fui procurar não lembro o que no site do shopping, e no link do teatro me deparo com uma frase que escrevi para o folder na época, entre aspas e com destaque:

"A arte imita a essência, aquilo que tentamos imitar em vida, desperta a liberdade do sonho e a generosidade da divisão do conhecimento humano sobre seu próprio ser."

Alguém por favor pode me explicar o que diabos eu quis dizer com isso? Eu não lembro mais.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 6:06 PM Comentários:




1988 não foi fácil. Todo mundo de preto. Todos desempregados. A estrada pra Itajaí não era nada recomendável, mas o Catreva sempre trazia um pó bom de lá. Acho que eu era o único que mantinha um emprego público, muito mal remunerado. Tinha um bar na praça Rui Barbosa, que bebíamos até cair todas as noites, sem exceção. Papelote de uma catarinense bem boa, amarelinha, no bolso. Sempre. A maioria com seringa também. Eu não. Lembro mesmo que ela era uma vagabunda.
- Bóris. Paga uma cerveja?
- Tó.
- Benhê... me leva?
- Cala a boca. Vou ficar.
Com copo na mão, nunca dava pra aplaudir a banda.
- Amorzinho. Vamos?
Atravessar a praça até que era divertido. Transávamos atrás do teatro de bolso. Deixava ela no muquifo onde morava, depois de um espetinho na Cruz. Tirar o coturno, nem pensar. Dorme assim mesmo. Cartão ponto de manhã. É. Não foi fácil.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 2:19 PM Comentários:



Segunda-feira, Outubro 06, 2003

lacuna

hoje acordei sem nada
time, clã, coração
fada
madrinha
anjo
da guarda

acordar assim sem saga
preferência, idéia,
raça
dá num dia
santo
sem paga

acordar às vezes
não tem acordo

v...a...g...a

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 6:36 PM Comentários:



Domingo, Outubro 05, 2003

Em minha modesta opinião, um dos mais belos trechos jamais escritos em língua portuguesa:

6

Curitiba: não o relincho de tuas estátuas eqüestres - sim a alameda escondida dos teus plátanos no Passeio Público.
Não a tua ópera do ufanismo babaca - sim os teus sinos da Igreja dos Polacos numa noite de janelas acesas no céu.
Não os portais dos teus sete monumentos ao horror - sim as tuas velhas casas de madeira com degrau, varanda, lambrequim.
Não o teu memorial ao merdoso kitsch, Curitiba - só uns poucos rostos queridos.

Dalton Trevisan (Pico na Veia)

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:31 AM Comentários:



Sábado, Outubro 04, 2003

ainda vai chegar o dia
em que trabalhar vai ser dormindo
a féria que nunca se via
longe das manhãs de domingo

depois do laboro, acordar
para descanso merecido
de um sonho por demais sofrido
e você vai ter que me esperar

sorrindo, bela ao pé da cama
sempre dizendo que me ama
isso de inventar acordado
vai ser tudo coisa do passado

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 11:46 PM Comentários:



Este anúncio é genial.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 11:29 PM Comentários:



Sexta-feira, Outubro 03, 2003

Photo by Ana Xavier

Flagrante do show do Autoramas no Cine: se
o Pipo estava assim, imagine como devia estar o escriba aqui.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 3:31 PM Comentários:



Quinta-feira, Outubro 02, 2003

Não consigo entender. Uma pessoa leva cerca de trinta segundos para lavar um prato. Uma pessoa leva no máximo vinte minutos pra lavar a louça de uma semana. Ele não. Não pode dispensar esse tempo precioso, com seus afazeres, essa merda de coisa de escrever, de música, de teatro, de banda de rock. Ai, que raiva. Essa merda toda. Não pode. E ele consegue ficar dezesseis horas num bar. Num bar. Eu disse dezesseis horas, doutor. Dezesseis. É o recorde dele. Foi num dia, é verdade, que ele saiu às duas da tarde do serviço, e foi pro bar. Chegou às seis da manhã em casa. E daí lavar a louça é perda de tempo. É demais. E eu aqui, sabendo que o desgraçado fica lá com aquelas vagabundas. Não que ele seja desses, sabe? Não é isso, que isso eu não perdôo. Mas aquelas, aquelazinhas lá, estão sempre lá. E ele ali, exposto. Não pode. Isso não.
Passa novela, jornal, novela de novo, seriadinho, uma merda de um jogo - ele deve ficar vendo isso: um jogo. Lá, naquele maldito muquifo. Pode, doutor? Um bando de marmanjos correndo atrás de uma bola? Pode?
Acaba o jogo, entra mais um jornal. Eu em casa, comendo. Eu como demais. Acho que é raiva, sabe? Não posso. Eu leio, sabe? Não é só tevê não. O senhor não pense que sou dessazinhas, assim. Não. Eu tenho instrução, doutor. Eu sou formada. Administração, na federal. Tenho mais instrução que ele, até, que fica lá fazendo revolução naquele lugarzinho lá, vomitando baboseiras numa mesa. Sou disso não. Mas ele é. E fica lá. Parece que tem que mostrar que sabe.

...

O que o senhor quer dizer com isso? Claro que a gente sai. Final de semana. Cinema, jantarzinho, tudo. Mas só no fim de semana. Eu queria que ele ficasse mais comigo. Doutor, veja bem: ele já chegou a ficar dezesseis horas num bar, doutor! Ele vai pra lá quase todo dia. Ele sai às seis, que ele é desses que escrevem, sabe? Não tem hora pra chegar, nem pra sair. E nem pra voltar pra casa. Chega quase sempre às quatro. Da manhã, doutor! É duro. Fica lá, de tarde, criando coisinhas para propaganda, essas coisas que o senhor conhece. Faz de tudo, até bula de remédio. O senhor não viu o comercial da mocinha que veste uma lingerie toda sexy só pra ir numa luta de boxe com o marido? E depois vem aquela voz do locutor dizendo que a lingerie... ai, eu nem lembro a marca... enfim, o locutor diz que é uma lingerie pra todas as horas. O senhor viu, não viu? Então, é isso que ele faz. Olha, na verdade eu acho que ele faz um monte de coisa besta. Mas é comercial, né, doutor? Nem sempre a gente faz tudo que gosta. Que ele gosta mesmo é de poesia. Mas poesia não dá dinheiro. E ele escreve cada coisa linda! E ele gosta de música. Mas daí eu já não gosto, que ele tem que ficar se metendo com essa gente de banda de rock, sabe? Essa gente não presta. E eu sei, que antes dele eu já namorei músico. É gente ruim mesmo. Tudo drogado. E bêbado. Se bem que quem passa dezessis horas no bar é bêbado também, né? Ah, isso eu sei. Eu sei o que eu sofria com o desgraçado do Marlon. Um namorado mais antigo sabe, doutor? Dos tempos de colégio ainda. Antes da faculdade. Uns dois namorados antes dele. E depois de tudo isso que eu sofri com aquele, ainda fui cair nas mãos deste. Ele é melhor que o Marlon. Até na música, sabe? Mas eu não sabia que ele era de música também. Pensei que era das letras, só. Intelectual, bonitinho. Se eu soubesse... Mas tinha uns olhos lindos. Apaixonantes.
Acho que ele queria mesmo de verdade ser artista. A mãe dele me falou, já desde o começo, que isso era o maior defeito dele. Mas que não era pra eu me preocupar, porque não ia dar em nada, que ele sempre parava tudo no meio. Fica aí tentando ser famoso. Sou disso não.

...

Claro que ele colabora, doutor! Lá em casa a gente divide tudo. Ele ganha mais dinheiro que eu, o senhor sabe, né? Que eu trabalho na loja, ganho conforme vende. E ele não. Ele tem aquele salário bom e parece jogador de futebol, que ganha uns bichos por fora. Mas eu chego a jurar que ele na verdade ganha mais do que apresenta, sabe? É que ele gasta tudo naquele maldito boteco. Tenho certeza. Pelo menos um terço do que ele ganha fica lá, com aquele dono de bar desgraçado e explorador de bêbado. Bem, mas ele é que colabora mais, o senhor sabe. Prestação do apartamento, do carro, luz, telefone, tevê a cabo, que eu detesto, que só tem programa cabeça de gente besta. Mais a loja que ele abriu pra mim. O mercado sou eu que faço, sozinha. Um monte de coisas, sabe, doutor? A vida não está fácil não. Mas isso de ele ganhar mais dinheiro não é motivo, eu acho. Não é motivo pra ele ficar dezesseis horas num bar. Olha, tem dias que ele chega com aquele bafão de cerveja e eu juro pelo santo mais santo que existe lá no céu que eu vou acabar com tudo. Mas não consigo. Aí fica essa bagacera. E eu como. Eu como demais.

...

Separar? Claro que não. Quer dizer, pensei. Mas, que é isso, doutor? Quero não. E a loja? E as coisas que fizemos juntos? E as coisas que vamos fazer ainda? E o senhor acha que eu vou largar esse homem por aí? Com aquelazinhas todas do boteco? Ah, pode parar, doutor. E o apartamento? E o carro? E a nossa viagem pra Miami? O senhor está louco?

...

Alprazolam 0,5mg e cloridrato de fluoxetina (gotas) 20mg/ml. Certo. Doutor, só uma coisinha: será que agora mais para o fim do ano não vai precisar aumentar a dose, não?

...

Tá bom. Mais duas caixas. Obrigada, doutor.

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 2:43 AM Comentários:



a mãe de manhã
olha para velhas notas fiscais
como quem vislumbra
álbum de família

um suspiro ou dois
aliviada na realidade solene da mobília
sonhar agora pra pagar depois

promissórias a cada conquista
muito mais se vê a prazo
que se pode ter jamais à vista

postado por: FLÁVIO JACOBSEN 1:38 AM Comentários:




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